DICA DE FILME: HAGAZUSSA – A MALDIÇÃO DA BRUXA (2017)

Se você gostou do filme A Bruxa (2015), você vai amar este filme.

Nos nossos piores pesadelos, nosso corpo se torna um objeto pesado, as cores frias e escuras são presentes e muitas de nossas angústias se materializam em nossa mente. A angustia é o tom mais forte que nos encurrala, nos envolve e nos dá um calafrio ocasionado por uma sensação de destruição. O pesadelo é algo calmo, sedutor e destruidor. É a expressão maior do domínio do caos, ou seja, a falta de controle. Uma das angústias que produzem os pesadelos é a ideia de destino, ligado a uma esperança. Qual é o nosso destino? Quem vamos nos tornar? O pesadelo é a virtualização da morte da esperança. E é essa a base de uma boa narrativa de horror: a morte da esperança, o afeto fundamental para a sociedade ocidental.

Hagazussa, ou A Maldição da Bruxa constrói uma narrativa seguindo essa lógica. O plot do filme é uma narrativa da transformação de uma mulher naquilo que há de mais monstruoso em uma sociedade. O filme narra a história de Albrun (Aleksandra Cwen), uma mulher que perde a mãe de uma forma traumática e apavorante ao testemunhar sua decadência de uma forma apavorante. Residindo próximo a um pequeno vilarejo nas montanhas da Alemanha, próximo a uma floresta sombria, Albrun é uma figura estranha e apontada como bruxa por muitos dos moradores da vila, principalmente crianças. Sua vida isolada e marcada pelo trauma que foi a morte de sua mãe, oprimida sexualmente, mãe solteira e solitária é uma precondição para o horror que sua vida vai tomar. Isso começa a acontecer quando uma moradora do vilarejo se aproxima de Albrun. A partir daqui é spoiler, por isso cesso o resumo do filme.

O que me faz indicar um filme que já sei que será controverso é sua construção imagética e signia. Usando muito dos signos que constituem um ambiente hostil, misterioso, sombrio e fértil para o horror, com cores secas e escuras, juntamente com uma cenografia deteriorada, a direção se aproveita muito bem das técnicas investidas pela equipe para criar um clima tenso e de pesadelo. Aqui, não temos susto, mas arrepios de pavor. O jumpscare é completamente esquecido, dando lugar a gritos de dor e pavor muito raros nos filmes de hoje. Gritos estimulados por algo doloroso não muito claro, mas que apavoram. Isso cria uma atmosfera que coloca em suspense qualquer segurança que tenhamos sobre esta história.

Por isso, o ponto forte do filme é, de fato, sua direção, que trabalha muito bem o tempo, o silêncio e a atmosfera. Aqui o ritmo é propositalmente lento. A câmera viaja por uma floresta densa e pantanosa, assim como as personagens do filme. As atuações são reflexo dessa direção e categorizam os atores a um trabalho de excelência que há muito não via. Aleksandra Cwen, que interpreta Albrun adulta, e Claudia Martini, que interpreta a mãe de Albrun estão terrivelmente impecáveis. As dores de suas personagens nos fazem pensar que há uma pessoa sofrendo no quarto ao lado, o que é um signo de horror tão eficaz quanto qualquer outro. Já para o final do filme, suas últimas cenas, vemos o clímax que não economiza forças. Por favor, me comentem sobre um jantar que vocês vão assistir.

Ao total de quase duas horas de filme, temos apenas 30 minutos de diálogos. O resto é uma construção de um pesadelo onde a transformação da personagem é, na verdade, a força de um poder que coloca a humanidade ao avesso. Recomendo demais esta obra de um diretor estreante de apenas 33 anos, Lukas Feigelfeld (ficar de olho neste nome). Mas recomendo mesmo assistir essa obra com o som adequado, se puder, com um fone de ouvido e no escuro. Não estou querendo traumatiza-lo, mas apenas elevar o termômetro do horror que esse filme pode causar.

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