DICA DE FILME: A CASA QUE JACK CONSTRUIU (2018), de Lars Von Trier

As confissões de Lars Von Trier em uma estética de terror a partir de Dante Alighieri

Não é surpresa para ninguém os incômodos que os filmes do dinamarquês Lars Von Trier criam. Sua aposta em utilizar conceitos e teorias da semiótica e da Gestalt, abusando de filosofias niilistas que beiram o inaceitável é o que elevam a visão deste diretor a um nível de relevância. Neste novo filme, Von Trier fala mais de si mesmo do que nos passados. Em A Casa que Jack Construiu (2018) – exibido no Festival de Cannes 2018 – acompanhamos as confissões de um assassino em série que, em 12 anos matou mais de 60 pessoas. Assim como nos outros filmes do diretor, em certos momentos nos perguntamos “por que estou assistindo isso”, mas não conseguimos parar de assistir. Pela competência em criar sentimentos em contradição e, mesmo assim, sustentar nossa atenção a obra, considero Von Trier um dos grande diretores de nossa época. Apesar de sua arrogância filosófica…

O filme é narrado através de 6 acontecimentos que foram essenciais para a construção da personalidade do personagem Jack (Matt Dillon). Em princípio, nos parece um estudo de personagem, mas aos poucos o filme mostra que se trata de uma exposição de si mesmo que o diretor nos traz. Cada assassinato é um filme de Von Trier, inclusive com alguns dos atores que participaram de outras obras do diretor como Uma Thurman.

Além disso, o personagem Jack tem uma intrínseca relação com a arte, com a psicologia. Em princípio, pensamos que o personagem narra sua história para um psicólogo, não como um comentário, mas como uma confissão – aqui lembrando muito as palavras de Foucault quando este diz que quando praticamos a confissão estamos construindo e expondo nossas ranhuras e nos colocando a disposição dos poderes. Na verdade, Jack está falando com Verge, melhor dizendo, Virgílio, o autor de A Eneida e, também, guia de Dante Alighieri em sua passagem pelo inferno na sua Divina Comédia. Esses simbolismos que Von Trier constrói em sua obra é costurado desde a decisão por que tipo de câmera usar, lentes e fotografias, que beiram o amadorismo, até chegar, no epílogo, a sua estética característica em câmeras lentas e com cores densas, o que dão um peso ao momento. Há momentos de desafio a quem assiste. Momentos que mexem com nossas piores sensações, tipicamente do diretor. Por isso se trata de um filme difícil, desde acompanhar cenas plasticamente fortes a discussões filosoficamente frágeis, passando por misoginias e até racismos. O ponto é: Von Trier expõe em Jack tudo o que construíram para ele. Jack se propôs a construir uma casa, mas que casa ele construiu? Será que ele construiu sua casa dos sonhos? Jack é vítima e autor. Suas atrocidades são absurdas, mas foram feitas e o levou a visitar o inferno, guiado pela arte mas sem o espirito de Dante Alighieri. Jack é um personagem poluído por sua própria história e pelo prazer bizarro de si mesmo criado ao longo dela. Essa é a grande confissão de Lars Von Trier. Jack, um estripador do cinema do século XXI.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s