Crítica: Tolkien (2019), de Dome Karukoski

Um Filme pobre para um rico campo de exploração sobre a vida de o criador de O Senhor dos Aneis

Fazer um filme sobre a vida de um intelectual nunca foi muito fácil. Muitas vezes pela quantidade de fases que a vida do personagem é constituída, ou mesmo pela complexidade dos problemas por eles enfrentados. Para uma história a ser contada, esses elementos, na verdade, representam uma riqueza. As polemicas enfrentadas, os traumas, os vícios, suas lutas políticas, decepções amorosas, rompimentos traumáticos e doenças são materiais fundamentais para falar sobre a vida de alguém, sobre uma perspectiva política, claro.

Quando pensamos na vida de J. R. R. Tolkien, imediatamente três pontos chamam bastante atenção: sua criação religiosa, sua relação com as línguas e seu conhecimento cultural e mitológico. O criador da Terra Média, autor de O Senhor dos Aneis é um dos autores que caiu no gosto da cultura pop – seja la o que isso quer dizer – mais estudados e respeitados academicamente. Seu modelo narrativo tem uma perspectiva naturalista que dão um teor de realismo absurdo a um mundo de fantasia. Sua postura política bucólica e em defesa da natureza o faz envelhecer politicamente muito bem. Seus questionamentos morais o complexificam na política e sua postura em relação a jornada do herói o posiciona no topo das obras do século XX. Não temos dúvida de quão genial é Tolkien, mas ao assistir ao filme sobre sua vida, tenho dúvidas sobre se era realmente necessário um filme sobre sua vida.

Ao contrário do autor, o filme se mostra extremamente pobre, tentando forçar um afeto emocional apenas na juventude e em sua participação na guerra. Claro, sua participação na primeira guerra mundial é peça essencial para falar de sua vida e de sua obra. Pensemos: O Senhor dos Anéis é uma narrativa do horror que é uma guerra, e de como ela destrói a moralidade dos homens. Posto isso, na narrativa proposta por Dome Karukoski, não há como observarmos a corrupção do homem que Tolkien narra. Em vez disso, o diretor busca criar paralelos entre sua experiência na guerra e personagens ou momentos de sua obra máxima. Em certo momento, o autor sugere que a palavra Hobbit tenha sido uma homenagem a seu amigo, morto na guerra, Robert Gilson. A mim, não importa a veracidade desse fato, mas sim o quanto uma obra se empobrece quando opta apenas por paralelismos frágeis em uma tentativa de totalizar as metáforas entre obra e vida de Tolkien.

Por vários momentos, encontramos o elemento do paralelismo que funciona apenas para os fãs da obra de Tolkien. Um respeitado professor que aparece rapidamente no filme e depois some tem ares de Gandalf e Bilbo, seus amigos são os hobbits, buon vivente, a guerra sendo uma representação oficial de Mordor. Aqui entra o aproveitamento que o diretor faz dos filmes de Peter Jackson, usando até mesmo as mesmas paletas de cores de O Retorno do Rei para criar uma identificação entre fãs e o signo ao qual ele quer representar. Mesmo a dupla de atores, que seriam uma boa aposta, Nicholas Hout (o Fera dos X-Men), como Tolkien, e Lily Collins, como Edith Bratt não possuem a química que faz os espectadores se apegarem ao casal.

Fazer um filme a um único determinado tipo de público não serve nem ao objeto da obra, nem ao cinema, apenas aos cofres das empresas, que ainda assim perdem a confiança de quem paga para assistir ao filme. Acredito que para um grande gênio como Tolkien era, o filme está muito aquém. Me parece que tentaram fazer um filme como o Teoria de Tudo (2014), de James Marsh. Mas aqui eles falharam miseravelmente. Não compro a proposta de que era um filme sobre a juventude do personagem. Como falar apenas de uma pequena parte da vida de alguém que tão bem descreveu a trajetória do herói? No mais, Tolkien (2019) parece ser um filme incompleto e indeciso sobre seu próprio objetivo… ou seja, tudo o que o próprio Tolkien não passava em sua obra.

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