Crítica: Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Antes de mais nada… AQUI CONTEM SPOILERS! FUJA DESSE TEXTO… FUJA MESMO. SÓ LEIA DEPOIS QUE ASSISTIR… mas se você não se importa, sinta-se bem vind@.

Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles entregam uma obra marcante e catartica do cinema brasileiro

Quando deixei a sessão de Bacurau, estava com as mãos vermelhas e quentes de tanto aplaudir e sem saber o que sentir sobre o filme. De antemão, já é perceptível que adorei o filme. Mas é perigoso escrever sobre algo que te leva a uma catarse tão emblemática para o momento do país como Bacurau o faz. Na verdade, já tinha sentido um pouco deste gozo com o filme anterior do próprio Kleber Mendonça Filho, Aquárius. Mas nesse, a dosagem vai além. Provavelmente pelo ingresso de um fã da cultura pop – não que Kleber não seja, ele é bastante – como Juliano Dornelles. Em Bacurau, temos um filme de gênero; temos Sergio Leone; temos John Carpenter (com direito a sua trilha sonora); mas acima de tudo, temos o Brasil.

Bacurau é um pequeno vilarejo. Uma cidade com vida pacata que tenta sobreviver a um Brasil dividido e violento. Talvez aquele vilarejo esquecido que, como Gandalf disse sobre o Condado, “que bom que ele não seja tão conhecido”. Nessa pequena vila de vida rica e pulsante a população se despede de uma matriarca: Carmelita (Lia de Itamaracá). Sua neta, Teresa (Bárbara Colen) chega a cidade e nesse momento coisas estranhas começam a acontecer. Pessoas da cidade começam a morrer. Por isso, a cidade passa a buscar uma forma de resistir.

Este plot simples é enriquecido com a estética do cangaço e a semiótica do cinema faroeste espaguete e o pop americano que encantam a audiência. Mas acima de tudo, este filme, como disse o próprio Dornelles, é uma reação a própria histórica política violente do Brasil. O roteiro de Bacurau parece ser desenvolvido organicamente, sem maiores recursos artificiais como deus ex-machinas fúteis que acabam por descomplexificar o filme; muito menos levam sua estrutura para uma vingança histórica com o artifício do revisionismo, como nos filmes de Tarantino. Aqui há violência – e a direção é muito clara nisso -, porém essa violência não é celebrada, mas amargurada. Concordo com uma amiga, que em uma conversa sobre o filme diz que Kleber e Dornelles conseguem ser aquilo que Tarantino não conseguiu, ou seja, dar sentido e, principalmente, lugar político à violência sem exaltá-la – sim, eu sou fã de Tarantino, mas sempre é bom problematizar todos os artistas.

Mas o que vai dominar o filme, principalmente aos olhos da plateia é o excelente trabalho de Silvero Pereira. O ator dá uma existência icônica ao seu personagem, que já parece ser bem escrito. Lunga é um procurado. Um bandido aos olhos do “Brasil do Sul”, mas um protetor aos olhos de Bacurau – o cangaço tem muito disso. Suas vestimentas são um espetáculo a parte – bem Silvero. Mas seu olhar conta uma história silenciosa, dores, sobrevivência e poucos arrependimentos. Ele e seu bando são homens fortes, mas que ainda possuem o carinho e o respeito enorme da boa Bacurau. Não é a toa que duas frase, ou expressões, marcam o retorno de Lunga ao vilarejo para defende-lo: “Eita, Porra” e “Que roupa é essa, minino” – quer algo mais nordestino? Lunga e seu bando parecem por demais personagens construidos a partir do banditismo que caracterizava os cangaceiros fora da lei. O que nós vemos na tela é uma das melhores representações desse bandido: um sobrevivente humano. Silvero é um desses diamantes encontrados que, a cada obra em que vai se lapidando, mais vai brilhando.

Não podemos esquecer as participações de Sonia Braga, como a médica Domingas e do veterano ator alemão Udo Kier, realizando brilhantemente o papel do vilão. Em uma cena em que ambos personagens se encontram não falta maestria de direção e atuação. Numa cena tensa, Domingas encara o sanguinário cassador mostrando um pouco da vida daquelas pessoas, já o personagem de Kier joga toda sua ameaça e frieza no olhar, usando suas armas para congelar Domingas, que não dá um passo para tras. Emblemático e violento confronto silencioso, orquestrado por uma minunciosa e delicada direção e atuação.

Bacurau é cercada por simbolismos políticos. Suas decisões dos lugares de resistências são claras. Horgwarts tem companhia: a escola de Bacurau serve de abrigo, mas também de lugar de retaliação. Quando os forasteiros matadores estão procurando a população, é de lá que vem os disparos de revide. O outro monumento que marca a resistência de Bacurau é o museu histórico da cidade, onde as armas estavam guardadas e são usadas pela população. Educação e Memória são os dois pontos essenciais da crítica política que o filme nos dá. Essa construção simbólica é alimentada pelo cancioneiro local, pelo canhão do canhoneiros que explode a cabeça de um dos caçadores e pela própria linguagem nordestina no filme. Por isso, acredito que devo ter deixado passar mais detalhes simbólicos que são elementos da catarse que sentimos com o filme. Acredito que nas próximas sessões, o filme só tende a melhorar. E o que desejo, já que ele não vai representar o país no Oscar 2020? Que ele tenha uma excelente carreira nas bilheterias do Brasil, que ele toque mais brasileiros como me tocou e que tenha uma magnífica vida internacional… quem sabe não conseguimos algo por fora nessa tal premiação do cinema hollywoodiano.

Ficha Técnica:

Título: Bacurau

Direção: Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles

Coprodução Globo Filmes

Distribuição Vitrine Filmes

Roteiro: Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles

Produção: Emilie Lesclaux, Said Ben Said, Michel Merkt

Duração: 132 minutos

Ano: 2019

País: Brasil

Um comentário sobre “Crítica: Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

  1. Que murro no estômago! Mas ao mesmo que satisfatório! Assim como em o Som ao Redor, KMF recriou num microcosmos o povo brasileiro, esquecido, vendido e entregue ao estrangeiro como presa. Mas nunca um povo rendido! Um filme ultra necessário para o cenário atual do nosso país.
    Saí da sala ARREPIADO! GENIAL, GENIAL, GENIAL!

    Curtido por 1 pessoa

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