DICA DE FILME: Corpo Delito (2017), de Pedro Rocha

Documentário de Pedro Rocha é essencial para o Brasil atual e se faz como resistência ao discurso de ódio que impera no país.

A atualidade de extrema violência e discurso de ódio no Brasil é o devir ideal para filmes como Corpo Delito, de Pedro Rocha. Não por ele ser um filme que surfa nessa temática, mas pelo seu absoluto oposto. O documentário acompanha a vida de um rapaz que, em estatísticas recentes mostram ser o mais vulnerável a morte ou assassinato. Ivan é um condenado da justiça brasileira que, após 8 anos no regime fechado do presídio, onde exerceu trabalho e teve um “comportamento aceitável”, teve direito a um regime semi-aberto com o uso da tornozeleira eletrônica. Para muitos de nós, classe média, isso parece ser um ganho enorme, mas não é bem assim que o documentário mostra.

Disponível na plataforma Mubi, o filme acompanha o lento dia a dia de Ivan e das pessoas que o rodeiam, mostrando o quanto torturante é permanecer no espaço em que a lei o obriga estar e como o monitoramento e a vigilância se fazem, aos melhores moldes relatados por Michel Foucault. É o poder disciplinar agindo sobre o corpo delinquente, buscando lima-lo da potência da vida e produzindo ansiedades que o forçam a certas resistências que, iminentemente sofre as consequências do poder punitivo da justiça.

O belo trabalho de Pedro Rocha nos apresenta personagens carismáticos que vivem em uma comunidade no âmago de Fortaleza, no Ceará. Sua realidade é contada a partir de seus próprios discursos, com pouca intervenção do diretor, que se ocupa apenas do direcionamento das objetivas e dos cortes, em uma edição orgânica e fluida. A construção da narrativa proposta pelo roteiro de Diego Hoefel beira a ficção. São poucos os momentos em que percebemos que estamos vendo um documentário, se aproximando mais de uma estrutura ficcional, mas ainda preso ao real, elemento fundamental do documentário.

Corpo Delito foi selecionado e exibido no Festival de Cinema de Tiradentes e no Dok Leipzig, na Alemanha. É uma obra essencialmente política, com um devastador testemunho social de como esses corpos agem socialmente, como suas subjetividades se encontram, muitas vezes, com as nossas, mas também, como nossas realidades sociais criam ambientes tão diferentes que podemos até dizer que são cidades dentro de outras cidades. Em certo momento, acompanhamos um dos personagens admirando a imensa cidade de Fortaleza. No topo de uma construção abandonada, os garotos sonham como poderia ser a cidade, e eles mesmo a arquitetam. Admiram todo aquele espaço, que deveria ser de liberdade, mas são pequenos naquela imensidão social onde os poderes atuam sob o olhar das pessoas nas ruas, dos vigias de shopping, dos policiais e da justiça. O que resta a eles?

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