CLÁSSICOS: O Martírio de Joana D’Arc (1928), Carl Theodore Dreyer

Clássico filme de C.T. Dreyer pode ser lido, hoje, como uma alegoria de nosso tempo. É um filme de 91 anos que envelheceu cheio de discursos atuais.

O ano de 1928 nos deu grandes clássicos do cinema estudados e relidos por muitos até hoje. Uma das obrigações que todo pretendente a cinéfilo deve assistir é O Martírio de Joana D’Arc. Esta obra grandiosa é considerada, até hoje, como a melhor leitura sobre o julgamento da santa guerreira francesa. O diretor dinamarquês Carl Theodore Dreyer, em pesquisas de documentos em Paris, achou as páginas que documentaram oficialmente o julgamento de Joana D’Arc, o que mostrou a ele uma história dramática de fé e força. O que faz dessa obra algo mais místico foi o fato de seus negativos originais terem sido perdidos em um incêndio. Mas pesquisadores acharam, em 1980, em um manicômio na Noruega, copias dos negativos que possibilitou o resgate deste clássico do cinema mundial. O impressionante é como este filme tem poder no ano de 2019, 91 anos depois de sua filmagem.

Como sinopse, o filme narra o sofrimento de Joana, num julgamento histórico da inquisição que a condenou à morte na fogueira. Podemos perceber duas genialidades que sustentam e elevam o nível de comoção do filme: a direção de Dreyer e, principalmente, a atuação de Reneé Falconetti. Dreyer utiliza câmeras extremamente próximas aos rostos dos personagens, buscando cada expressão como um dispositivo emotivo e afetivo poderosos para com a história e o público. Em um julgamento que despertava as piores sensações em Joana, desafiando sua fé e seus princípios, vemos na fantástica interpretação de Falconetti uma Joana poderosa, mas extremamente humana, com medo, fraqueza e uma gigante força e coragem de si mesma. Falconetti consegue nos passar toda a complexidade do momento, sendo um dos principais fatores de sucesso da direção de Dreyer.

É interessante registrar que O Martírio de Joana D’Arc é fundamental para sentir a necessidade e a importância do feminismo hoje. Enquanto testemunhamos um tribunal repleto de homens julgando uma única mulher, que se mostra extremamente poderosa a frente deles, devemos saber também que a atriz do filme, embora tenha feito uma das mais memoráveis atuações da história do cinema, fez apenas este filme. Isso porque o assédio do diretor foi tão grande que ela resolveu voltar para os palcos e não mais trabalhar com cinema. Eram filmagens extremamente estressante, uma vez que se sabia que Dreyer exigia por demais de cada ator. Com Falconetti, isso transbordou.

Não é possível passar pano para este comportamento do diretor, mas não se pode descartar que este filme se faz como necessário esteticamente e eticamente para a causa feminista da nossa atualidade – e me desculpem se estou ocupando o lugar de fala que não é meu, mas este olhar político não posso deixar de reportar. Observar naquele microcosmo apenas uma mulher sendo julgada por homens constitui uma empatia necessária. A violência com a qual eles usam para tentar manipular as subjetivações de Joana a levam a se enrijecer. Joana se torna gigante. Dreyer sabe disso, e por isso, no momento em que ela se posiciona para sofre sua morte pelo fogo, ele a capta com um contra-plongee que a engrandece e a eleva a um lugar alto, acima dos sacerdotes que a condenam a morte.

Joana é queimada, os habitantes que testemunham se sensibilizam. As mulheres choram, enquanto os homens estão sensibilizados. Alguém grita que os sacerdotes mataram uma santa, e assim começa uma revolta. O Martírio de Joana D’Arc atravessou se perdeu no fogo, como sua personagem, mas ressurgiu para o mundo por uma cópia restaurada, posto que esta força é vital, é vita, é necessária estar entre nós. Dreyer nos aproxima de uma Joana muito parecida com várias Joanas do mundo. Ele nos leva aos olhos dela, e Falconetti nos guia por suas dores.

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