CRÍTICA: Parasite (2019), de Bong Joon Ho

Filme Coreano laureado em Cannes 2019 com a Palma de Ouro é instigante, fluido e necessário para a atualidade.

A sensação que tive ao termino da projeção de Parasite, novo filme de Bong Joon Ho – vencedor da Palma de Ouro, do Festival de Cannes 2019 -, foi de uma flecha que ao atravessar várias superfícies chegou em minha alma… e a feriu. Falo isso porque pelas entrelinhas da obra de Joon Ho há uma ação cujo o efeito eu não sei dizer se foi produzido propositalmente. Eu acredito que sim, conhecendo a maestria do diretor que finalmente conseguiu levar o cinema sul-coreano ao patamar que merece. Joon Ho dirigiu filmes como o excelente Memórias de um Assassino, o controverso Expresso do Amanhã e a tocante produção da Netflix, Okja.

O filme conta a história de uma família semi-miserável que mora em uma casa que é quase como um porão, ou melhor dizendo, um buraco em um bairro muito pobre de Seul. A família de Ki-Taek (Kang-Ho Sang), um quarentão desempregado que sustenta a família com os bicos possíveis, assim como todos os seus integrantes: o filho Ki-Woo (Woo-sik Choi), a filha Kim Jung (So-dam Park) e sua esposa, Chung-Sook (Hye-jim Jang). Em um momento difícil Ki-Woo encontra um amigo que vai embora de Seul e quer que o amigo ocupe seu lugar dando aulas a filha de uma família de ricaços – sim, eles são muito ricos. A família de Dong-ig Park, um executivo de uma empresa de eletrônicos multimilionária. Estruturada na mais arrogante e esnobe forma de existir. Logo percebemos que a família Ki-Taek se torna um grupo de golpistas, onde um de suas peças percebe uma oportunidade de trazer seus entes e “infestar” o ambiente dos ricaços de Seul.

Logo, sua irmã Kim Jung se torna Jessica, uma tutora de artes que controla o filho hiperativo dos Parks, Ki-Taek passa a ser o Sr. Min e Chung-Sook, a governanta da mansão. Ao ganhar a confiança do casal Park, os filhos trazem toda sua espécie, que vivia em um buraco em Seul, levando-os para o topo da cadeia econômica e de lá tirar um pouco de proveito. Tudo fazia parte de um plano. Tudo parecia perfeito… até a tempoestade perfeita. É quando este signo do pesadelo aparece – o icônico trovejar – que o filme transforma o próprio gênero. A partir daqui, não falo mais, uma vez que este filme funciona bem demais sem darmos spoilers. Por isso, não ouso estragar.

É possível compreender como esta obra de Joon Ho conquistou quase que todo o júri de Cannes 2019. Suas reviravoltas vão além da própria história: ela transforma o gênero do filme. As histórias dos personagens são profundas e vicerais. O filme arrebenta com nossa própria interpretação. E ai entra o que falei a pouco sobre a ação invisível do filme: ele nos faz atingir a nós mesmos iminentemente. Sua complexidade ao tratar da natureza das ações e decisões humanas dentro das relações de classe envolve muitos espectros. Os desejos, os anseios, as paixões, a necessidade de sair do submundo, de se sentir alguém em um mundo regido pelas regras da classe dominante. Joon Ho nos mostra com uma habilidade frenética como é ridícula o modo de vida burguês daquela Coreia que ele vê. E também como essas pessoas que querem a qualquer custo, deixar a miséria, tendo apenas a habilidade de enganar são ridiculas em suas propostas de planos de ascensão, se transformando em miseráveis parasitários. Aqui, vemos uma obra que, em vez de vitimizar os pobres e apelar para a pena, ele narra uma história poderosa e crítica sobre as estruturas sociais que desumanizam por natureza e produzem esses seres inconformados que, em vez da violência se utilizam da destreza. E por todo o filmes sabemos que é óbvio que o plano não dará certo, o que não impede de torcermos para os trambiqueiros. Seus personagens de extremo carisma são um presente para os espectadores que, em algum momento do filme se reconhecem em algum deles.

Outra proeza da direção é quanto a materialidade que as sensações do filme nos passa. Repleto de elementos narrativos que fazem da obra brilhar, me chama muita ateção a escolha sensorial estetica desses elementos. Mesmo sem possibilitar sentir o cheiro, Joon Ho explora essa sensação a todo o momento, sendo de uma forma visual quanto pela sugestão de um dos personagens, quando ele é flagrado falando do cheiro ruim que seu motorista tem. por todo o filme, a desumanização é construida, o que leva ao final surpreendente e arrebatador.

Ao fim do filme, fomos levados a amar e torcer por uma família que se fez golpistas, a percebemos como infiltrados que estão aproveitando a oportunidade de se inserir naquela vida de sonhos consumistas. Parece que tudo é um plano que se seguido a risca, dará certo. Mas o real consome tudo isso. E o real passa a agir naquele microcosmo. Ao fim das contas, percebemos que estamos vendo um filme sobre esses parasitas que se consumiam e consumiram a todos que ali habitaram. E provavelmente, o grande parasita deste filme seja o sonho que toda uma sociedade é levada a ter pelo sistema que a rege. Por fim fica o sonho como um fraco oponente do real. Por essas e outras que Parasita é um dos melhores filmes do ano.

Ficha Técnica:

Título: 기생충 (Original)

Ano produção 2019

Dirigido por    Bong Joon-ho

Estreia: 30 de Maio de 2019 ( Mundial ) – Sem data de estreia no Brasil

Duração          132 minutos

Elenco: Jang Hye-Jin; Jo Yeo Jung; Lee Seon-gyoon; Song Kang-ho; Choi Woo Shik.

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