CRÍTICA: Pacarrete (2019), de Allan Deberton

A delicada direção de Allan Deberton e a avassaladora interpretação de Marcélia Cartaxo criam uma personagem icônica de uma história fabulosa.

Ao termino da sessão de Pacarrete, eu estava mergulhado não apenas em lágrimas e encanto, mas também em uma memória que talvez muitos dos brasileiros – ou talvez muitos nordestinos – se identifiquem. Falo de uma memória infantil, em uma cidadezinha no interior do estado. Cidade de vida pacata onde todos conhecem um pouco de todos. Nessa cidade, sempre se escuta histórias de pessoas excêntricas que viram ícone daquela região, ou mesmo daquela cultura. Como não lembrar do “Seu Lunga”, no Juazeiro do Norte (CE), o “homi mais ignorante que você já viu falar” – o homem de respostas mais ríspidas que você vai ouvir falar, traduzindo do cearês. Nessa belíssima obra de Allan Deberton, acompanhamos uma parte da vida de Pacarrete, uma excêntrica e cativante senhora de Russas que sonhou em ser bailarina e queria dar de presenta à cidade uma apresentação sua, da dança A Morte do Cisne.

O filme delicadamente dirigido por Deberton nos apresenta um riquíssimo conto sobre uma personagem gigante em sua própria proposta de existência. Como em suas palavras, a Pacarrete era uma senhora que viveu em Russas, no Ceará, e era uma personagem muitas vezes caricaturada pelas pessoas da região. Porém, em sua pesquisa, Deberton descobriu outras Pacarretes: a que existia para as pessoas mais próximas dela e a que ela percebia de si mesma. Para além da mulher “bruta e ríspida” que xingava e expulsava as pessoas que andavam e sujavam sua calçada, existia, também, uma mulher inteligente e culta – que conhecia arte, falava francês e detestava a ignorância de seus próximos – e uma dançarina, uma bailarina. Existia ali um ser humano dedicado a amar as pessoas próximas a ela, se dedicando a ajudar em tudo, como o filme retrata sua irmã (Zezita de Matos).

A primeira metade do filme apresenta Pacarrete, interpretada brilhantemente por Marcélia Cartaxo, que, mais do que merecido, venceu o Kikito de Melhor Atriz no Festival de Gramado 2019. Não há como não perceber que estes primeiro e segundo atos são magistralmente levados por Cartaxo. Sua Pacarrete nos faz rir, nos emociona com seu romantismo e suas palavras de afronta. Uma mulher empoderada que não leva desaforo para casa e nem permite que ninguém atrapalhe seus planos e sonhos. Sua obsessão pela limpeza de sua calçada reflete a sua relação com a própria sociedade que rodeia: “Saia da minha calçada moleque, xô, passa”. Ao mesmo tempo, a rejeição desta sociedade a faz “ser forte como mandacaru” e assim mesmo viver o abandono e a solidão. E é nesta solidão que Pacarrete encontra a si mesma, cheia de poesia produzida por ela e pelo diretor Allan Deberton. Diretor e atriz pareciam trabalhar em estado de graça, com uma química extraordinária e difícil de encontrar nas obras cinematográficas. Por isso, as câmeras de Deberton se apaixonaram por Marcélia Cartaxo e juntos foram poéticos. Isso a gente assiste, emocionados, no último ato do filme, e na derradeira cena de fechamento.

Pacarrete me encheu o coração, pulsou minhas memórias e fez de minha alma, residência da minha história, se sentir orgulhosa da minha cultura. Me emociona porque esse é o cinema que acredito: simples, puro, pronto para nos chamar e contar uma história de uma pessoa que era vista de uma maneira, mas que por traz daquelas falas, existia um ser humano icônico, simbólico, gigante e rico que mexe com nossos afetos e, principalmente, com o olhar de nós para com nós mesmos. Não é à toa que o filme venceu em 8 categorias do Festival de Gramado. E assim espero, que para o próximo ano, ele tenha uma longa, longa, longa vida. A estreia está marcada para março de 2020. Então fiquem atentos, posto que essa obra é imperdível.

Trailer publicado pelo jornal O Povo

Ficha Técnica:

Pacarrete (2019)

Duração: 1h 37min

Data de lançamento nacional: Março de 2020

Direção: Allan Deberton

Roteiro: André Araujo, Samuel Brasileiro, Natália Maia, Allan Deberton

Elenco: Marcelia Cartaxo, Zezita Matos, Soia Lira, João Miguel, Débora Ingrid, Samya de Lavor, Rodger de Rogério, Edneia Tutti Quinto.

Gêneros Drama, Biografia

Nacionalidade Brasil

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