CRÍTICA: Midsommar (2019), de Ari Aster (sem spoilers)

Novo filme de Ari Aster, diretor de Hereditário (2018), é um terror folclórico, desafiador à estética do horror tradicional de Hollywood.

Um dos problemas impossíveis de se desvencilhar para todo cineasta estreante que obteve grande sucesso com seu filme de estreia é a expectativa que se cria em volta de seu próximo projeto. Após a aprovação de grande parte da crítica e de boa parte do público sobre seu filme Hereditário (2018), Ari Aster foi alçado a categoria de novos diretores a ficar de olho. Isso leva uma carga de responsabilidades que, muitas vezes, prendem o diretor a uma única formula de se fazer cinema, impedindo que eles explorem as formas criativas de se contar uma história. Não é o que acontece no caso de Midsommar (2019), novo filme de Aster. Portanto, se você for ao cinema esperando um terror tradicional, com jump scare, ou mesmo um filme parecido com Hereditário, você vai se frustrar e não vai encontrar o que se espera. Primeira dica: deixe a mente aberta para o que há de vir.

Midsommar é uma experiência completamente diferente do que a indústria do make money hollywoodiano oferece. Esqueçam todos os filmes de horror que vocês viram os ultimos anos, nesta obra, Aster aposta em um conto de estética desafiadora aos padrões estabelecidos e tecnicamente impecável. Midsommar aposta nas cores e no claro, em vez da estética sombria e escura, dos terrores normalizados. Diferentemente do que se pode pensar, essa estética não é uma novidade. Em 1973, O Sacrifício (The Wicker Man), de Robin Hardy, já apostava no medo à luz do dia. E este filme é claramente (sem trocadilhos) uma inspiração para a obra de Aster, assim como “O bebê de Rosemary” (1968) foi para Hereditário.

O brilhantismo de Midsommar é proporcional à polêmica que ele pode estabeecer entre os fãs do gêneros que sempre esperam assistir um “Invocação do Mal”. É um filme riquíssimo em detalhes, em signos que dão motivos para análises semióticas da condução da narrativa, mas também é um filme demorado, lento, mas que, em nenhum momento perde em força de prender a atenção dos espectadores. O roteiro e a direção nos envolve em mistérios que se guiam pela construção de cada personagem importante para a trama, assim como é importante o personagem principal de tudo isso: a comunidade. No filme, acompanhamos a história de um casal de universitários que vive uma crise de relacionamento. Porém, como na maioria dos filme de Aster – isso inclui seus curta-metragens – um trauma acontece na vida de um deles: Dani (interpretada de forma FANTÁSTICA por Florence Pugh), que perde pai, mãe e irmã logo nos primeiros 5 minutos, o que não configura um Spoiler. Traumatizada e vivendo um péssimo momento, ela parte em uma viagem com seu companheiro para um festival de solstício que acontece em uma comunidade nos campos da Suécia. Partem Dani, seu companheiro Christian (Jack Reynor), e seus amigos de faculdade, nos quais dois deles buscam objetos para suas teses de doutorado, mostrando-se antropólogos. Nessa comunidade, os costumes e cultura que eles encontram são diretamente confrontados com os seus. E a partir desse estranhamento, o filme começa a se desenvolver.

Ao contrário da maioria dos filmes de horror que apostam em enunciados alarmistas contra os perigos que circundam seus protagonistas, esta obra não aposta nesse enunciado. Por isso, podemos compreender que o choque cultural que testemunhamos é um componente da estranheza que temos quanto ao outro, que segundo Michel Foucault, é o objeto de nossa relação consigo mesmo. Aster classifica sua obra como um folk horror movie, ou como alguns criticos estão denominando, um terror antropológico, onde ao mesmo tempo que se conta uma história, se narra as tradições e costumes de uma cultura diferente e o quanto a estranheza que percebemos nos aterroriza. Mas é justamente dessa relação (o eu e o estranho) que surgem as soluções dos preblemas dos personagens e da história do filme.

Não encontramos os jump scare, mas encontramos um teor de gore, sentimos as dores e choros das personagens devido a direção viceral de Aster e a interpretação de Pugh. O filme, de fato, leva o tempo necessário para um estudo dos principais personagens, para estabelecer a complexidade das relações em questão. Ele eleva a tensão entre os desejos e anseios de cada um, rompendo éticas e laços de amor. Sua estética se configura como violenta do mesmo modo como os filmes de Tarkivsky, ou de Kubrick já foram, apostando na experiência da narrativa e na complexa filosofia do vazio, por onde gravita nossas ações para dar sentido a nossa jornada nesta vida. No fim das contas, Midsommar é um filme emergido das dores do próprio Aster, que em entrevista afirmou que quis falar sobre rompimentos. Por aqui devo terminar para não dar mais spoilers. Vá assistir e depois comente para conversarmos mais sobre esta maravilhosa obra.

Ficha Técnica

Nome: O mal não espera a noite – Midsoma

Nome Original: Midsommar

País: EUA

Ano de produção: 2019

Gênero: Terror

Duração: 140 min

Classificação: 18

Direção: Ari Aster

Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, Will Poulter, William Jackson Harper

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s