DICAS DE FILMES: 3 Clássicos que você deve assistir sobre o cinema expressionista alemão

Além de crítica, uma das propostas deste site é conversar e apresentar um pouco da teoria e linguagem do cinema. Isso se torna impossível sem nos voltar à história do cinema para falar de seus aspectos mais importantes e revolucionário. Hoje, para nossa dica de filmes, vamos falar um pouco do expressionismo alemão… afinal de contas, os gêneros do terror e da ficção científica não seriam os mesmos se não fosse ele.

Assim como todas as artes, o cinema é um produto de seu momento histórico. Nas entranhas de suas estruturas podemos identificar ideologias, práticas culturais e documentos de uma época. O cinema é um grande arquivo das histórias da humanidade. Seu uso para fins políticos são tão poderosos quanto os elementos políticos que o produzem, principalmente em sua forma de gêneros. Seja o western, ou o musical, ou as aventuras, ou os romances, percebemos em sua estrutura narrativa elementos que entoam a ideologia de uma sociedade em um certo momento histórico. O terror não foge à linha: é um dos gêneros que mais reflete a ansiedade, a agonia, os medos de uma sociedade a partir dos viscerais rompimentos com as normalidades morais e políticos de uma sociedade. O horror cinematográfico é a expressão das dores de certas sociedades, tendo como dispositivo discursivo, ou argumentativo, o absurdo (a fantasia fantasmagórica).

Proletariado se organizando para o trabalho em Metrópolis (1927), de Fritz Lang.

Na Alemanha pós-primeira guerra, assim como em boa parte da Europa, a modernidade, a razão e o positivismo estava em pauta. Era o princípio da falência do racionalismo positivista que estava em processo – e que depois da segunda guerra mundial entraria em processo de óbito. Com o Tratado de Versalhes, a Alemanha estava afundada em pobreza e humilhação. Seu povo em constante agonia vivia um momento disrruptivo que, mais tarde se percebeu que fora o terreno ideal para o florescimento do nazismo. Desesperança, pessimismo e depressão eram sentimentos sociais compartilhados à época na sociedade germânica. Os estudos da psicologia social no cinema alemão da época desenvolvido por Siegfried Kracauer apontam que o cinema alemão já dava claros indícios que aquela sociedade estava adoentada e que ansiava por uma grande líder que iria libertá-los.

Neste cenário, o cinema alemão começou a se desenvolver e a entregar ao mundo uma das mais geniais escolas cinematográficas da história das artes. Lembremos O Grito, de Edward Munch. O norueguês pinta em estruturas distorcidas uma figura bizarra, um humanoide contrastado com as cores quentes que o envolvem, mas em vez de dar vida a sua existência, o assola em dor e agonia. Esse quadro expressionista talvez seja uma porta de entrada para compreender como o expressionismo alemão no cinema retratou todos esses sentimentos, usando-se do folclore europeu e germânico. Para pontuar, diz-se que os personagens das histórias do expressionismo alemão estão sempre entre a tirania e a loucura.

Dito isso, vamos falar de 3 filmes, de três diretores diferentes: O Gabinete do Dr. Caligari (1920), de Robert Wiene; Nosferatu (1922), de F. W. Murnau; Metrópolis (1927), de Fritz Lang.

  1. O Gabinete do Dr. Caligari (1920), de Robert Wiene.

Para muitos, este filme é o maior marco do expressionismo alemão. Em o Gabinete do Dr. Caligari, observamos todas as principais características do movimento como a temática antinaturalista, as linhas diagonais dos cenários, que geram uma impressão de desequilíbria, os fortes contrastes com as pesadas maquiagens e os claros-escuros muito evidentes e os exageros nas atuações dos atores. Percebam no filme que muitas vezes, Wiene opta por usar cores em alguns momentos do filme. Essa técnica chamada de “viragem” é usada para dar consistência a um aspecto psicológico da cena.

O filme conta a história da chegada a cidade de um misterioso hipinotizador, o Dr. Caligari (Werner Krauss). Com ele vem Cesare (Conrad Veidt), um sonâmbulo que, reza a lenda, está dormindo a mais de 20 anos. Curioso, Francis (Friederich Feher) e seu amigo Alan (Hans Heinrich von Twardowski) visitam o gabinete do Doutor Caligari (Werner Krauss), onde conhecem Cesare (Conrad Veidt), um homem sonâmbulo que diz a Alan que ele morrerá. Quando a noite cai, de fato, Alan morre e seu amigo, assustado se uni a polícia para investigar o caso, seguindo Cesare, que atravessa a cidade em seu sonambulismo pelas ruas na noite. Para descobrir todos os mistérios, Francis acredita só haver uma solução: adentrar no misterioso gabinete do Doutor Caligari.

  • Nosferatu (1922), de F. W. Murnau.

Talvez o mais famoso entre os filmes do expressionismo alemão. Esta obra se baseia na história de Drácula, de Bram Stoker. Porém, o nome e alguns elementos da história se diferenciam por conta da não permissão da família do escritor de adaptar o livro ao cinema. Talvez, essa não permissão tivesse sido essencial para a produção desse clássico, determinante para o gênero do horror e dos contos vampirescos. Como se sabe, a história dos vampiros remonta as lendas folclóricas de origem da época da peste negra. A característica das vítimas da peste era de corpos pálidos, com pouco sangue, magra, febril e de recorrentes alucinações. Em seus corpos, marcas roxas e pretas apareciam, porém, como as vestimentas da época não mostravam muito do corpo, o mais comum de notar a peste em alguém eram quando as marcas apareciam nos pescoços dos doentes. Dizia-se, então, que vampiros tinham visitado essas pessoas. Por algum tempo, a peste foi associada ao vampirismo, principalmente porque os casos se agravavam da noite para o dia.

A história de Nosferatu traz todos esses elementos. Trata-se da narrativa de um jovem e apaixonado corretor imobiliário, Hutter (Gustav von Wangenheim), que viaja para os Montes Cárpatos para vender um castelo no Mar Báltico cujo proprietário é o excêntrico conde Graf Orlock (Max Schreck), um milenar vampiro. Na ocasião, Hutter também vai oferecer uma casa ao conde que, curiosamente, fica em frente a sua, em Bremen, na Alemanha, onde ele deixou sua esposa Ellen (Greta Schröder). O bizarro conde busca sangue de Hutter, que consegue fugir de seu castelo e embarcar de volta para casa. Mas no navio, Conde Orlock também embarca. Ao chegar em Bremen, o conde se vê atraído pela bela esposa de Hutter, que encontra um professor estudioso dos vampiros para tentar lutar contra Orlock. Mas a ciência pouco pode fazer.

Percebam que nesta sinopse já se encontram elementos típicos do expressionismo: o antinaturalismo, quando se opta pelo absurdo; o anti-racionalismo, quando a ciência não é a chave para derrotar o antagonista; a angustia e o ataque a normalidade, quando a vida de um casal feliz é interrompida por um ser perverso. Se voltarmos para o que falamos sobre os reflexos políticos, percebamos que de fora da Alemanha, forças obscuras interrompem a vida, as relações sociais, as esperanças de um povo e os afunda em medo e angústia. A história dos contos vampirescos são esses reflexos desde sua era folclórica até os tempos mais modernos. Um força entre a natureza e o ser humano, invisível, sorrateiro, misterioso, sedutor e completamente destrutivo.

  • Metropolis (1927), Fritz Lang.

Em uma sociedade a beira do nazismo, onde o povo afundado na pobreza e a cada dia mais segregada da esperança, o surgimento de um líder é capaz de transformar as relações de classe. A ideia de Lang era a conciliação de classes, nada de revolução comunista, como tinha acontecida na Russia. Para ele, toda revolução findava em tragédia. Era um claro aceno de medo da trágica revolução francesa. Lang vai ao absurdo. Ele cria uma história de ficção científica sobre uma cidade futurista em que a burguesia exercia domínio completo sobre o proletariado. Neste contexto, Freder (Gustav Fröhlich), o filho do governador da cidade – um frio capitalista chamado Joh Fredersen (Alfred Abel) – se apaixona por Maria (Brigitte Helm), uma profeta da classe trabalhadora, que prevê a vinda de um salvador para mediar a diferença entre as classes.

O aspecto visual é deslumbrante e este filme é homenageado por vários outros filmes daquilo que Deleuze chama de segundo cinema, como Guerra nas Estrelas (1977), onde o robô C3PO foi desenhado aos moldes do androide de Metrópolis, que iria substituir os humanos no trabalho.

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