CRÍTICA: Ad Astra (2019), de James Grey

Filme de James Grey, produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira e estrelado por Brad Pitt vem acumulando elogios por onde passa e apresenta reflexão filosófica importante.

Olhar para o céu a noite estrelada é algo que incita a imaginação. Não é de hoje, mas de tempos o céu é um mistério que nos envolve. De alguma forma, essa atmosfera azul ou negra iluminada pelos astros é um signo que nos faz sentir que há algo além desta matéria que nos observa. Seja um Deus, sejam vidas inteligentes que podem vir a nos visitar, ou que simplesmente nos vigiam de longe. Mas descobrimos a grandeza infinita do espaço. A religião nos explica Deus. A ciência nos mostra o vazio do tempo-espaço. Até hoje, somos nós e nós, mas ainda assim, tentamos crer que algo acima de nós nos olha e está lá aguardando que descubramos, pronta para solucionar nossos próprios problemas. Para a religião, Deus. Para James Grey…

Em princípio, o filme escrito e dirigido por Grey, produzido por Rodrigo Teixeira e Brad Pitt – que também é o astro do filme – parece ser sobre a relação de um filho com seu pai. Uma história que pode cair na pieguice psicanalítica de um édipo mal resolvido que foi elemento central de várias jornadas do herói que temos por aí. Porém, vemos nesta obra elementos a mais, com várias referências ao cinema de Terrence Malick, reflexivo e filosófico. A storyline do filme trata de história de Roy, um astronauta que após um desastre na estação em que trabalha descobre que seu pai, um herói da exploração espacial que acreditava-se morto em serviço, pode estar vivo. Ele seria a causa da tempestade que atingiu a estação – e matou milhares de pessoas. Com isso, em uma missão secreta, Roy é chamado para tentar encontrar seu pai, que possivelmente está em Netuno.

Tecnicamente, observamos um filme bem escrito, com roteiro profundo em questões filosóficas e buscando estabelecer uma narrativa entre o mistério e o melodrama. Típico dos filmes de Grey, o ritmo do filme tem altos e baixos, apresentando longas camadas melodramáticas em momentos mais tensos. Mas isso não compromete a qualidade do filme. O maior problema está no último ato, quando Roy vai se encontrar com o seu antagonista, e a solução do problema perde no poder emocional que prometia. Mas mesmo assim, é compreensiva a solução rápida e seca. Aqui estamos tratando de uma relação morta. Quando alguém tenta encontrar vida em algo vazio, ou já morto, a relação precisa ser seca, direta, sem maiores tensões. É compreensível, mas deixa a desejar cinematograficamente no que concerne a emoção e a empatia que o cinema como arte busca.

Ad Astra também é um show visual, assim como foi Interestelar. Não é à toa que Grey trabalhou com o mesmo fotografo de Nolan. A fotografia do holandês Hoyt Van Hoytema nos apresenta todos os momentos de emoção, vida, vazio e morte que o filme nos passa. As cores e luzes da Terra e da Lua em contraste com as emoções de Roy, o vermelho tenso e marcial de Marte e o azul pálido, frio e morto de Saturno. É cativante quando vemos no momento mais sombrio do filme a longínqua luz do Sol chamando de volta o personagem de Pitt para casa, para sua vida. Os astros dão o tom da cinematografia do filme.

Porém, a verdadeira alma de Ad Astra é Brad Pitt. Já tinha achado sua atuação em Era Uma Vez… em Hollywood uma das melhores do ano. Espero que concorra ao Oscar de melhor ator coadjuvante por ele. Mas torço mesmo para que concorra ao prêmio principal por Ad Astra. O personagem Roy McBride apresenta-se no começo do filme como alguém distante de sua sociedade, apesar de estar inserida nela. Seu conflito está diretamente ligado ao vazio que seu pai deixou. E seu sofrimento está relacionado a perceber que está sendo dragado para o mesmo destino do pai. Lutar contra isso é seu maior conflito. Ser ele e não seu pai. Renegar o pai, mesmo amando-o. Que ano para Pitt. Um ano memorável que comprova sua enorme competência como ator.

Talvez, a ficção científica esteja se tornando o gênero preferido para grandes reflexões sobre a relação entre nós, como humanidade, e nossos sonhos. Ir à lua, povoar Marte, colonizar o Sistema Solar pode se tornar apenas um escapismo, como um diálogo entre Roy (Pitt) e um velho amigo de seu pai (Donald Sutherland): “seu pai pode ter ido até Netuno para escapar daqui”. Este escapismo é um signo pulsante de nossos próprios impulsos em não resolver o que precisamos resolver em nosso lar. Se algo está sendo deteriorado dentro de nossas casas, não é fugindo para a Disneylandia, ou para a lua, ou para Netuno, seja qual for o grande motivo, ou em prol de que causa que vamos encontrar respostas para o problema e, muito menos resolvê-lo. Ir as estrelas, buscar a resposta nos céus, em Deus, ou com o pai, não é a solução. Será que queremos ser uma espécie de vida que deveremos procurar outras terras, outras vidas, porque não conseguimos resolver nossa vida por aqui? Será que essas grandes perguntas da ciência, de fato, são grandiosas como pensamos? Por que precisamos da resposta se estamos ou não sozinhos no espaço?

O filme é uma obra cativante, questionadora e provocadora. Mas possui alguns defeitos no ritmo e em decisões sobre os efeitos que seus personagens exercem sobre outros. Esses defeitos podem levar a uma desconexão entre o filme e a plateia, o que filmes como Interestelar e Gravidade não fazem. A pouca participação das poucas mulheres no elenco também pode ser um fator polêmico, principalmente quando olhamos para o papel da personagem de Liv Tyler, a esposa de Roy, que só aparece em casa, ou sendo o reflexo do vazio que o personagem deixa. Talvez, James Grey pudesse dar uma maior presença e importância a essas personagens que, por fim, são apenas peças para o desenvolvimento dos personagens homens.

Em Ad Astra, testemunhamos o niilismo pós-moderno: há o vazio da falta, o vazio do espaço, o vazio da causa. Resistir a ideia de que estamos sós é o que nos leva a aventuras fantasiosas que nos faz dar as costas aquilo que mais importa, a vida que nos cerca. Foi o sofrimento de Roy, quando seu pai sacrificou a vida em família pela resposta e pelo contato com a vida fora da Terra, assim como era o que estava acontecendo com Roy e sua esposa (Liv Tyler, em um curtíssimo papel), sacrificando a ideia de ter uma vida normal, uma família. Nesse processo, vemos seres humanos mortos vivos, que sem respostas e sobrevivendo apenas com a ambição de grandeza, esquecem de toda atmosfera possível que os envolvem.

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