DICA DE FILME: As Boas Maneiras (2017), de Juliana Rojas e Marco Dutra

Surpreendente filme de terror nacional atravessa os limites do gênero e fala muito mais do que pensamos que ele propõe. Tocante, emocionante e assustador.

Um dos elementos essenciais para um bom cinema é a ousadia. Só através dela é possível romper com os clichês, ou, quando não é possível evitar, ser original em seu modo de usá-lo. A pergunta que faço é: se eu te oferecer um filme brasileiro sobre lobisomem, você compraria? Se você não for um super-fã do gênero, aposto que recusaria. Claro, compreendo que há uma grande desconfiança sobre este sub-gênero do horror, sem falar na bobagem gigantesca – e que com este filme espero que seja superada – em achar que não há bons filmes brasileiros. Pois pronto, eu vou tentar vender este filme. Um filme de Lobisomem que… não é apenas sobre Lobisomem.

As Boas Maneiras foi lançado em 2017, dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, com atuações de Isabél Zuaa e Marjorie Estiano, este filme é uma história com elementos fantásticos que conversam plenamente com o Brasil contemporâneo. Como uma boa fantasia, os elementos narrativos e dramáticos estão na mesma linha política do país. A história começa com Clara (Isabél Zuaa), uma moça negra que está para ser entrevistada por Ana (Marjorie Estiano), uma jovem mulher de 29 anos que está grávida e procura alguém para ajuda-la em casa e com o bebê que está par nascer. Ao conesuir o emprego, Clara se muda para o apartamento de Ana e lá percebe que não se trata de uma gravidez comum. Ana não sabe, mas ela carrega uma criança monstro em seu ventre. Dai em diante, não explico mais, uma vez que corre o risco de grandes spoilers serem ditos.

Imagino a cabeça de quem lê e tem certos pés atrás com produções nacionais: “nossa, como deve ser trash”. Larga de ser bobo, caríssimx. Se você amou filmes fantásticos sombrios como os de Tim Burton e de Guilhermo Del Toro, não tenha nenhum pingo de medo em escolher este filme para uma sexta ou sábado a noite. Claro que há problemas com certos efeitos especiais, não estamos em Hollywood e aqui se trata de um projeto de recursos limitados. Porém a sutileza e a ousadia da direção de Rojas e Dutra casam tão bem com a proposta da história que até alguns elementos de outros gêneros que achamos ser demais acabamos perdoando. Mas para não assustá-los quanto a qualidade técnica, ela é bem satisfatória. Os efeitos práticos são realmente muito bons. Eles nos convence e até nos comove. Já o CGI tem pequenas falhas, mas também facilmente aceitável, já que conhecemos os limites dos recursos, como disse. O que importa mesmo é que nesses momentos, nós, espectadores já estamos dentro da história. Esses pequenos defeitos não são o suficiente para abalar a boa estrutura narrativa, muito menos atrapalham o belíssimo trabalho dos atores: Isabél Zuaa, Marjorie Estiano e o garoto Miguel Lobo.

Por fim, esta história, a qual o roteiro propõe uma jornada de travessia entre o mistério, o horror, o drama e o musical (este é o ponto de exagero do filme) nos apresenta um conto que nos toca profundamente. Sob este país que não para pra pensar sobre seus impulsos, lutar contra a justiça com as próprias mãos é essencial. Dos nossos monstros cuidamos e amamos nós. Vocês entenderão o que falo. Escrevo este texto empolgado e tocado com o que assisti. Se fosse uma crítica, daria 4 estrelas de 5. Mas aqui é uma simples dica sobre um filme do nosso país, que conta uma história de fadas urbana, costurada com as linhas do horror, do absurdo, do fantástico e do dramático, nos entregando uma obra tocante e sensível. Assistam As Boas Maneiras e deixe-se surpreender por ela.

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