DICA DE FILME: O Ovo da Serpente (1977), Ingmar Bergman

Há filmes que ao ser lançado em seu tempo não é muito bem percebida, mas que em certos períodos históricos eles ascendem como uma obra prima e passa a ser extremamente necessário. Este é um pouco o caso de O Ovo da Serpente, do mestre sueco Ingmar Bergman. Localizado temporalmente no momento do diretor que conversa muito com o cinema americano, com filmes menos denso de sua pegada psicanalítica – como Persona, Morangos Silvestres e Gritos e Sussurros – ou filosófica – como no caso de O Sétimo Selo – este filme faz um estudo das condições sócio-políticas da Alemanha dos anos 1920, a conhecida República de Weimer. Porém, em nenhuma hipótese, este filme é menor que os aclamados filmes do diretor.

A sinopse narra a história de Abel Rosenberg (Davida Carradine), um americano judeu que trabalhou em um circo como trapezista, mas que após o suicídio de seu irmão Max, juntou-se a sua ex-cunhada, Manuela (Liv Ullmann), para conseguir viver às dificuldades da miséria e violência latente no povo daquele país. Rosenberg e Manuela para fugir da miséria, aceitam trabalhar em uma clínica clandestina que faz experimentos em seres humanos. Por todo o filme, os personagens se encontram atônitos, acostumados com as dificuldades e sem perceber que ao seu redor emerge um perigo absurdo.

Sob uma estética violenta, Bergman constrói uma narrativa que, apesar de servir de alerta a um público dos anos 70 e 80, pouco dialogava com as lutas de resistência da época. Mas a arte não é criada para apenas a sua contemporaneidade. Sobrevivendo ao tempo, a arte se encaixa a momentos futuros como um arquivo de uma época que volta a aflorar a nos tocar, a mexer com nossos afetos, no caso de O Ovo de Serpente, de uma forma visceral. Bergman não faz um trabalho de receita de bolo, ou seja, usando os ícones simbólicos recomendados para afetar ou criar um alarmismo típico de jornalecos. Ele nos convida a menos a uma reflexão e mais a uma análise de como o nazismo teve todas as condições, antropológica, social, econômica e política para a ascensão do nacional-socialismo. Em uma luta contra inimigos externos e comuns como os judeus e o comunismo, contra a política da socialdemocracia e, principalmente, contra o Tratado de Versalhes, que humilhava o povo alemão após a derrota da primeira guerra mundial, havia ali o ambiente ideal para o surgimento de um salvador da pátria que lideraria o povo humilhado e miserável a sua apoteótica vitória.

Bergman nos apresenta uma obra que responderia seus críticos que o acusavam de ser excessivamente psicanalítico e pouco político. Aqui testemunhamos uma obra brutalmente política. O ato final é um dos mais fantásticos de toda obra de Bergman. A cena final e reveladora, as tomadas e os diálogos se encaixam e nos passam a sensação paranoica que aquele povo carregava. O Ovo da Serpente foi produzido após uma longa análise histórica, antropológica, sociológica, política e filosófica da República de Weimar, se consolidando como uma das melhores peças sobre o período. A decadência das personagens, a ascensão da violência que a cada instante do filme ganha mais espaço, com a fome e a miséria sendo elementos fundamentais: há uma cena de desespero da população que corta carnes de um cavalo morto para ter o que comer. Chamar a atenção para este momento de uma realidade que gestou o salvador da pátria Adolf Hitler é essencial para os dias de hoje, uma vez que a vingança e o ódio foram os elementos que moveram o nazismo. Para além dessas poucas palavras, assistir a O Ovo da Serpente é ter acesso a um arquivo importante, que traz uma análise e uma reflexão que nos deve sim, assustar, o quanto ela dialoga com nosso tempo. Bergman sabia que o ovo da serpente sempre esteve presente. E que era questão de tempo a sociedade, inadvertidamente voltar a chocá-lo.

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