CRÍTICA: Coringa (2019), de Todd Phillips

Filme de Todd Phillips e brilhante atuação de Joaquin Phoenix trilha perigosamente pela reação anarquica e niilista, mas se constroe como uma obra estranhamente necessária.

Buscando compreender como a sociedade chegou ao fascismo e ao nazismo, essas tragédias da história moderna, intelectuais se debruçaram na história, na filosofia, na psicologia, na política, na economia e na sociologia para compreender como chegamos a tal ponto. Filmes como A Arquitetura da Destruição (1989) e O Ovo da Serpente (1977) foram obras de arte que buscaram traçar os pontos e dar forma ao ambiente que chocou o mal na sociedade. Nos anos 1960, Hannah Arendt escreveu seu clássico Eichmann em Jerusalem e cunhou o termo Banalidade do Mal para mostrar como a violência normalizada a partir dos ambientes de crise social e institucional reproduzem, historicamente e através da razão, a política da exclusão e as práticas de crimes com fins de justiça que conduzem ao mal total. Abro minha crítica com esse resgate histórico da ciência e da arte cinematográfica para falar da necessidade histórica do filme Coringa (2019), de Todd Phillips, porém, com todos os cuidados que devemos ter.

Para ser relevante, é preciso uma dosagem de polêmica. Após aclamação no Festival de Veneza, o filme do vilão de Batman foi acusado de ser uma ode ao terrorismo em Toronto. Críticos chegaram a pedir que boicotassem a obra devido a sua hiperviolência. Chegaram a dizer que o nosso tempo não precisa de um filme sobre um terrorista que quer descontar na sociedade as suas frustrações. Bem, de antemão acho completamente descabido esses apelos. De fato, Coringa é um filme de estética bastante violenta e, também, perigoso. Mas é longe de ser uma obra como a série 13 reasons why. Na verdade, Coringa se faz necessário assim como o filme Três Anuncios para um Crime o foi para compreender as pessoas que decidiram votar em Trump, por exemplo. A polêmica de Coringa costura a trajetória de um dos mais complexos personagens vilões da cultura ocidental. Mas isso, é importante informar, não exime o filme de problemas sérios, que, de fato, dão alguma razão às vozes que pediram boicote.

O filme conta a história de Arthur Flerk (Joaquin Phoenix), o personagem sofrido que vai se tornar o Coringa. Acompanhamos o personagem em relação constante com a cidade de Gothan, afundada na corrupção, na miséria e na violência. Politicamente, as instituições de Gothan estão falidas. Crimes mal resolvidos, uma elite completamente alheia ao povo e, este povo, sedento por justiça e longe da política. Eis o ambiente do ovo da serpente, como apontou Bergman. Arthur é esse sujeito surrado pela vida, violentado, desnutrido (como acusa seu corpo magérrimo), mas cativante em sua relação com a mãe, com cuidados especiais e dedicados e com sua vontade de levar alegria ao mundo. Seu maior desejo: ser reconhecido e amado por fazer as pessoas rirem. O maior problema de Arthur é que ele está perdido sobre si mesmo. Distante de si e de construir-se a si mesmo, Arthur delira nas piadas, apresentando distúrbios psíquicos que geram risos em vez de outra emoção antagônica. É no ambiente hostil, delirante, lunático que vai emergir sua verdadeira identidade: o Coringa. Para não dar mais spoilers, paro aqui a sinopse.

 Como aponta a sinopse, o roteiro – uma quase certeza de indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado – foi feito pensando em construir o personagem. Tudo o que envolve a história está ali como acontecimentos que oprimem em um certo grau Arthur. Por maior que seja o seu desejo, o distanciamento dele consigo mesmo é o vazio por onde os roteiristas – o próprio Phillips e Scott Silver – traçam a jornada do vilão. Há só pequenos deslizes como o excesso de explicação visto em uma cena que nos revela um certo delírio do personagem e mostra sua psicopatia grave. É por demais explicativa e demonstrativa. Porém, isso não é constante, o que me dá um alívio. Em geral, o arco do personagem é desenhado como em uma ópera trágica, com pontos obscuros, brincando com a violência, jogando a moral como um pêndulo que em certos momentos funciona como catarse, mas que em seguida nos faz questionar o que vimos. Sua costura cumpre muito bem o seu papel nesta obra.

O ponto mais perigoso fica por conta da direção. Todd Phillips tem momentos de genialidades. Mas há um toque de descuido no terceiro ato. Por todo filme, ele nos conduz em um drama trágico, brincando com a comédia e o horror típico dos personagens. Muitas vezes, temos a sensação de que Phillips nos conta uma distopia, mas o que importa a ele é como ser brutalmente real com a atualidade sem perder a fábula do absurdo. Isso ele consegue com sucesso. Há um certo momento no filme que fora magistral. Phillips mexe com seu público. Sem narrar a cena em detalhe, descrevo a sensação que tive. A direção de Phillips veste a maquiagem do Coringa e nos faz ter a reação que o personagem quer: logo após uma morte brutal e violentamente absurda, ele nos entrega uma cena cômica. Eis que surge o contraste moral. Em uma poça de sangue, nós rimos de um certo desespero assim como o Coringa queria. Não rimos do ridículo, rimos do personagem em desespero. Coisa que o Coringa faria. Pois bem, Todd Phillips fez. E aqui, depois de falar muito bem, chegamos ao momento do deslize. E aqui vem um Spoiler… então, se você não assistiu, pule o próximo parágrafo, ou pare de ler e vá ver o filme. Mas se não se importar, continue.

A cena final tinha tudo para ser magistral, se o diretor escolhesse tratá-la com contraste. Com a confusão e o acidente de automóvel, o Coringa é retirado desmaiado pelo povo revoltado do carro. Ao acordar, ele é ovacionado pela população. Assim escrito, não se vê muito problema. O problema mesmo aparece na entonação que Phillips dá a cena. O Coringa ovacionado pelo povo tem tons épicos, com planos que o engrandecem e com uma música que o trata como herói. De fato, essa escolha me fez o filme perder alguns pontos. É o que o torna dúbio. Em vez de optar por uma trilha mais sombria, ou planos mais desconcertados, descentralizados e com menos plongee ou contra plongee, talvez víssemos ali o nascer de um absurdo, em vez de a emergência de um herói mal compreendido. Nesse ponto, Phillips perde a mão, que vinha muito bem por todo o filme. E isso sim, se torna perigoso, principalmente para sociedade que veem a solução, exatamente no absurdo, no “qualquer coisa” menos… na apolítica. Dár tons heroicos ao anarquismo niilista é uma falta grave.

Por fim, gostaria de expressar o prazer que é ver Joaquin Phoenix atuar. Nesse filme especialmente, Phoenix nos entrega a sua melhor atuação. É visceral, é mental, é carnal. Seu Coringa navega pelos mares do carisma e da repulsa. Ele está nos deslocando o tempo inteiro, com seu jogo corpóreo, como uma proto-quimera desnuda a nossa frente, prontíssima para trocar de pele. Os estilos de risadas que seu personagem apresenta nos conduzem pelo estado emocional de Arthur ao Coringa. Os movimentos e as posturas são transformadas de ato em ato. Suas danças quando conquista algo como uma vitória que infla seu ego e aos poucos vai revelando a ele mesmo quem ele deve ser. A força que ele faz para deixar contida toda aquela emoção que busca desesperadamente uma forma de sair, de abandonar aquele corpo e dominá-lo. Sem saber o que fazer com seus demônios, Arthur se entrega ao prazer da violência, de destruir aqueles que tentam diminui-lo, com requintes de crueldade e violência nos olhos. Por todo o filme, testemunhamos um sujeito de olhar perdido, ansioso, inseguro, mas no ultimo ato, percebemos alguém extremamente seguro de si, dono do momento e do ambiente, porque todos os muros foram derrubados e todas as regras abandonadas. Arthur morreu. De sua carne nasceu o Coringa. O que importa? A si mesmo, alimentar este ser que agora o dominou e o deu uma nova vida, sem nenhum objetivo fora de seu ego. Este palhaço, com certeza, me assustou mais e me apavorou mais do que Pennywise.

Discordo completamente de quem diz que este filme não é necessário para os tempos de hoje. Acho exatamente o oposto: acredito que nosso tempo precisa de um filme como este, com a brilhante atuação de Joaquin Phoenix e uma bela direção de Todd Phillips. Seu perigo é o mesmo perigo que o personagem apresenta. Sua anarquia niilista violenta. O erro em que muitos “analistas” de cultura pop (sei lá o que isso quer dizer) apressam-se (ou só é preguiça cultural e verbal) em dizer é que o Coringa é um personagem anárquico. Ok, até ai, tudo bem. Mas só isso não completa a compreensão do personagem. O filme nos responde. O Coringa é ovacionado pela população porque a anarquia dele era niilista, era vazia, era apolítica. Para ser algo positivo para a construção social, a anarquia precisa ser movida pela política, jamais pela falta ou negação dela. Mesmo que essa política seja uma utopia a ser alcançada, mas é um remo civilizatório necessário. O que assistimos de brilhante no filme de Phillips é exatamente a construção de um símbolo violento, apolítico e vazio, onde a única coisa que importa é o preenchimento dos desejos do Eu, do Ego do Coringa que por muito tempo foi invisível, humilhado pela sociedade ao seu redor.

Histórias parecidas com esta, existem: Hitler, Mussoline, Franco, grandes lideres totalitários, violentos, vingativos e egocêntricos que queriam dar respostas ao vazio, centro de suas construções simbólicas. Esse ego que funciona como um buraco negro que suga as luzes do ao seu redor para se alimentar. Coringa, apesar de seu problema no terceiro ato, é um filme necessário, posto que ele estuda o mal que persiste em existir. E é exatamente isso que nosso tempo pede: estudar o mal ao nosso redor, como fizeram grandes intelectuais e artistas com os dispositivos que tinham a época. Há casos que não há como não ser maniqueísta.

Ficha Técnica

Nome: Coringa

Nome Original: Joker

Origem: EUA

Ano de produção: 2019

Duração: 122 min

Classificação: 16 anos

Direção: Todd Phillips

Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Frances Conroy, Zazie Beetz

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