CRÍTICA: O Clube dos Canibais (2019), de Guto Parente

A excelente fase do terror brasileiro e do cinema do nordeste nos traz essa obra assustadoramente divertida e denunciativa.

Alegoria e metáfora sempre foram figuras de linguagem bastante utilizadas na arte do cinema. Principalmente quando observamos filmes de horror ou que buscam no afeto da agonia explorar os meios psíquicos que os signos de uma época invocam. Lembremos George Romero, com seu A Noite dos Mortos Vivo (1968), quando os zumbis eram construídos a partir do feitichismo da mercadoria de uma sociedade do consumo. Ou mesmo No filme de Phillip Kaufman, Os Invasores de Corpos (1978), uma alegoria baseada na ameaça comunista. No Brasil, essas alegorias também eram comuns nos filmes de Glauber Rocha, onde os problemas sociais e as lutas políticas de resistência eram mostradas por figuras mais caricatas, com brilhantes e potentes falas que nos fazem reconhecer o Brasil daquele momento. Hoje, filmes alegóricos com narrativas cheias de metáforas sociais voltaram com muita força. É o caso de O Clube dos Canibais (2019), do diretor cearense Guto Parente.

O filme mostra a vida cotidiana de um casal da elite local, Otávio (Tavinho Teixeira) e Gilda (Ana Luiza Rios). Otávio é membro de uma sociedade secreta chamada Clube dos Canibais. O costume singular do casal é contratar trabalhadores sem elo familiar, mata-los e comê-los.  Tudo muda quando Gilda acidentalmente descobre um segredo de Borges (Pedro Domingues), um poderoso congressista e líder do Clube, ela acaba colocando sua vida e a de seu marido em perigo. O tom do filme é visceral. A excelente direção de Parete mostra nos ambientes uma sofisticação bizarra e isolada, claustrofóbica e de pouco contato com a sociedade exterior ao Clube. Rodeada por muros e segurança, a casa onde se passa a tensa narrativa do filme é o microcosmo das relações de classe e de poder que me remete imediatamente à própria cidade de Fortaleza, onde a elite mora em seus condomínios murados em frente ao mar, e seus empregados no subterrâneo, precisando agradar e sobreviver às exigências de seus patrões. Sua direção utiliza a vulgaridade a seu favor, se apropriando da sofisticação da elite brasileira como máscara glamorosa que esconde seu apetite pela carne do proletário. Uma das mais fortes cenas do filme mostra a hipocrisia e a violência dessa elite que aponta os miseráveis como uma desgraça social brasileira, mas que, ao mesmo tempo, se refere ao bom povo do país, o povo pelo qual eles lutam… eles mesmos.

Logo de cara, percebemos o quanto este O Clube dos Canibais busca, visualmente, representar algumas figuras do cenário político brasileiro. O personagem Otávio, em vários planos e ângulos, lembra por demais o congressista Aécio Neves, por exemplo. Sua forma de andar, sua forma de encarar as pessoas, a sua postura que denota poder, suas relações com seus funcionários, além de todos os seus desejos violentos contidos, revelam a grande atuação de Tavinho Teixeira. Mas quem, de fato, brilha no quesito atuação é Ana Luiza Rios e sua Gilda. Imersa nesse mundo louco, nauseada com os poderes que a envolvem, articulosa em seus planos e sedutora, Gilda é a personagem mais carismática (e detestável, também, precisa ser dito) nesse conto de horror. Não se pode deixar de lado o antagonista Borges, com poderosa interpretação de Pedro Domingues, um líder político reacionário que também é o líder do Clube. Sua forma de lidar com seus parceiros de tela nunca nos revela quem ele trata como igual. Sempre superior a todos, frio, calmo e convincente, a sequencia em que contracena com Gilda após uma revelação bombástica nos mostra o talento de Domingues. Extremamente convincente, ele nos faz acreditar e temer o personagem. Em geral, o elenco dirigido por Parente tem um ar caricata, bem próximo, mas melhor dosado ao que Scorsese mostra em O Lobo de Wall Street, e esse é o elo entre a fantasia e o real que o filme imprime muito bem através do gore.

Esta característica é perfeitamente executada nos efeitos práticos do mestre do horror brasileiro contemporâneo Rodrigo Aragão, que assina os efeitos especiais do filme. A carne, o sangue e os corpos dos proletários são os objetos centrais da mensagem social do filme, o que nos leva a um problema de desenvolvimento do roteiro. Infelizmente, o que o filme mostra de mais bizarro fica escanteado quando a escolha do conflito que geram as disputas do filme está entre eles mesmos do clube. A sobrevivência da classe pobre é uma mera coincidência, ou um golpe de sorte que pouco tem a cooperar com a conclusão no ato final. Isso faz do discurso impresso pelo filme sobre as lutas de classe serem apenas de denuncia das relações sociais e de poder. Em vez de resistência, temos resiliência, e por fim, a pouca evolução do personagem Jonas (Zé Maria Alves), que fica mais para o acaso. Isso enfraquece o roteiro, mas não compromete o filme, que em essência diverte, denuncia e assusta com sua alegoria do real da sociedade patriarcal e reacionária brasileira.

Ficha Técnica

Data de lançamento 3 de outubro de 2019 

Tempo: 1h 24min

Direção: Guto Parente

Elenco: Ana Luiza Rios, Tavinho Teixeira, Pedro DominguesJosé Maria AlvesRodrigo Capistrano

Gênero Terror

Nacionalidade Brasil

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