CRÍTICA: A NOITE AMARELA (2019), de Ramon Porto Mota

Filme de Ramon Porto Mota marca a excelente fase do cinema nordestino, com competência e criatividade.

Quando tinha 16 anos, nos anos pouco antigamente, eu não compreendia muito bem as sensações que rodeavam minhas dúvidas. Estava chegando o fim de uma etapa e o momento decisivo para o início de outra. Lembro muito bem das pressões familiares sobre as decisões que precisava tomar e, às cegas, com muito medo, atirava para algum canto tentando acertar algum alvo que preenchesse esse incomodo vazio que embrulhava meu estomago. Nunca soube se minha decisão foi a mais correta. Mas minha história passou por intensos momentos de perguntas existenciais e foi atravessada pela sensação niilista que a passagem da vida adolescente para a vida adulta marcou. Muitos jovens de classe média passam por este mesmo processo. Mas de acordo com cada momento histórico, as angústias emergem com tons diferentes. A cor que Ramon Porto Mota escolheu narrar é o de uma escuridão amarelada, pálida como a fome, a falta de ferro no sangue, ou mesmo, a cor dos olhos de um anêmico. Essa é a pegada do terror existencial A Noite Amarela.

O filme tem uma sinopse que em princípio parece clichê: sete jovens vão comemorar a passagem do ENEM em uma casa de praia numa ilha do litoral da Paraíba. Na casa do avô de Mônica (Ana Rita Gurgel) os jovens vivenciam uma farra com bebidas e cigarros, ao som de um garage rock indie brasileiro da banda Mercenárias, que muito tem a ver com as personagens. É quando Karina (Rana Sui), visivelmente angustiada e mais distante do resto do grupo, vasculhando a casa, descobre que o avô de Mônica era um cientista físico-quântico que tinha laboratório na sua própria casa onde fasia experimentações. Desde então, Karina some, o que leva as personagens a uma busca tensa por ela, como uma viagem por suas próprias existências. O filme luta contra sua limitação financeira, o que faz as decisões de Mota engrandecerem a jornada da obra. Nos primeiros minutos, quem está acostumado com imagens de filmes com altos investimentos sentem um pequeno estranhamento, mas logo é deixado de lado pela direção orgânica e fluida que o filme tem e pela química extraordinária do elenco. Em nenhum momento – e isso é raro – sentimos um diálogo forçado ou pouco natural. Muitas vezes, pensei que os atores e atrizes estavam improvisando suas falas. De fato, acreditei em cada personagem que ali estava.

Ana Rita Gurgel, Rana Sui, Clara Pinheiro Oliveira, Marina Alencar, Felipe Espíndola, Matheus Martins e Caio Richard dão um show de interpretação. Acreditei piamente que aquele grupo existiu e, mais, lembrei dos meus grupos de amigos. Uma prova de sua química e o quanto são convincentes é a cena em que os sete estão reunidos em volta de uma fogueira, lembrando de casos engraçados na escola. Ali observamos uma dinâmica de pessoas que há muito se conhecem, cujo o rítimo do papo não deixa nosso interesse cair, por mais superfluo que o dialogo possa ser. Dentre todos, queria destacar duas atrizes: encanta e já me chama atenção a interpretação de Ana Rita Gurgel (O som ao Redor) e de Rana Sui. As duas atrizes dominam a tela quando estão em cena. Talvez pela maior atenção e o foco maior que o roteiro dava a essas duas personagens aprofundando mais em suas histórias e seus perfis. Com uma pegada mais voltada para o existencialismo em contato direto com o surrealismo – a imagem de um buraco negro na mão de uma das personagens me remeteu diretamente a Um Cão Andaluz, de Buñuel – o roteiro acerta, apesar de deixar a desejar quanto ao arco de alguns personagens. Mas de acordo com a ambiciosa proposta de narra as angustias de um devir e de um possível futuro por vir, o roteiro de Jhesus Tribuzi mostra uma boa competência. O último ato é bem envolvente e as decisões de direção ajudam bastante a completude da história. Mas faltou, infelizmente, uma maior profundidade em outros personagens muito interessantes.

Desta forma, recomendo bastante esse filme paraibano de gênero que denota a grandeza e o momento em que vive o cinema no Nordeste. A forma e a linguagem estão cada vez mais diversas e sua força se estende mostrando uma enorme e feliz competência. Sai da sala de cinema profundamente tocado e satisfeito com a projeção. Recomendo assistir no cinema, mas se não puder, vale conferir no Google Play, onde você poderá alugar. Para os cinéfilos de plantão, fiquem de olho no trabalho de todos os nomes citados aqui. Deu, sim, vontade de ver mais.

Ficha Técnica

Título: A Noite Amarela

País: Brasil

Ano: 2019

Gênero: Horror
Direção: Ramon Porto Mota
Elenco: Marina Alencar, Servílio de Holanda, Felipe Espindola, Ana Rita Gurgel, Matheus Martins, Clara Pinheiro de Oliveira, Caio Richards, Rana Sui, Fernando Teixeira, Cristian Verardi
Roteiro: Ramon Porto Mota, Jhésus Tribuzi
Duração: 100 min.

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