CLÁSSICOS QUE VOCÊ DEVE ASSISTIR: Fanny e Alexander (1982), de Ingmar Bergman.

Obra-Prima de Bergman é uma inspiração a muitos artistas, como Guilhermo del Toro e Ari Aster.

Falar de uma obra de Ingmar Bergman nunca foi algo fácil. O diretor, em toda extensão de suas obras, nos apresenta histórias de cunho pessoal, com questionamentos que o perturba e com situações quase autobiográficas. Seus personagens são seres humanos complexos envolvidos em enredos guinados por lutas de relações de poder que estão extremamente ligados à sua visão de mundo. Bergman sempre foi um diretor autor, que fazia filmes para responder a si mesmo, a suas angustias e a suas filosofias e com forte teor psicanalítico, político e social. Escolher uma única obra sua para indicar é uma responsabilidade que qualquer um que queira se reconhecer como crítico ou analista de filmes precisa enfrentar. Então cá estou eu entrando neste campo minado, mais uma vez. Já indiquei O Ovo da Serpente (1977), mas por questões políticas. Agora, eu queria indicar um filme mais por questão cinematográfica, para aqueles que querem um filme impactante desse diretor. Eu poderia falar de O Sétimo Selo (1956), ou Gritos e Sussurros (1972), ou A Hora do Lobo (1968), ou Morango Silvestres (1957). Mas depois de ver uma lista de filmes favoritos de Ari Aster (Hereditário e Midsommar), um desses novos diretores que temos que ficar de olho, resolvi rever Fanny e Alexander (1982), que era um dos filmes de Bergman que eu nunca tinha dado tanta atenção. Dessa vez, eu posso dizer que me senti impactado e, ainda por cima, com o meu novo favorito do diretor.

Fanny e Alexander é um daqueles filmes que começa mostrando a vida e o dia a dia de uma família burguesa onde uma tragédia abate a normalidade cheia de alegrias e vislumbres – sem esquecer as hipocrisias e mentiras – e acaba afundando por um período a vida de duas crianças e sua mãe. A sinopse é a seguinte: após o alegre Natal da família Ekdahl em 1907, Oscar Ekdahl (Alan Edwall) – um reconhecido dramaturgo sueco -, pai do casal de crianças Alexander (Bentil Guve) e Fanny (Pernilla Arwill), passa mal quando representava o fantasma da peça de Hamlet e falece. A dor e o sofrimento de Emilie (Ewa Froling), mãe das crianças e viúva de Oscar, a aproxima do bispo Edvard Vergérus (Jan Malmsjö), um religioso extremamente rígido, que a pede em casamento. Alexander, traumatizado, começa a ter visões do pai falecido. As crianças são obrigadas a deixar a casa da avó paterna, onde foram muito felizes, e passam a viver com a família do padrasto: a mãe, irmã, a tia enferma e as criadas, numa casa afastada e ascética. São despojadas de qualquer bem inclusive livros e brinquedos e passam a sofrer com hábitos severos, sendo tratadas como prisioneiras. Alexander é imaginativo e conta uma história sobre ter visto os fantasmas da ex-esposa do Bispo e suas filhas, todas falecidas. Ele é severamente punido pelo padrasto durante a ausência da mãe e passa a fantasiar sobre a morte dele. A mãe também toma consciência da real personalidade do marido e de quanto os seus filhos sofrem naquela casa, assim planeja uma maneira de tirá-los daquele lugar e levá-los de volta à casa da avó. Este filme venceu 4 Oscars: Filme Estrangeiro; Direção de Arte; Figurino; Fotografia.

A genialidade da direção de Bergman nos faz sentir como uma viagem entre gêneros cinematográficos. Estamos assistindo a um filme sobre família, que se transforma em um filme sobre o luto, que se transforma em um horror sobre a opressão, que se transforma em um thriller de resgate. A tensão nos abate a partir do segundo ato, quando entra em cena o pastor Vergérus, magistralmente interpretado por Jan Malmsjo. Esse papel originalmente seria do ator que mais trabalhou com Bergman, Max Von Sydow (que interpretou o Padre Merryl em O Exorcista e fez até uma palinha em Guerra nas Estrela – O despertar da Força), mas por uma desorganização do empresário americano, o ator acabou não recebendo o convite. Mas Malmsjo não deixa nada a desejar. Seu pastor é frio e cruel. Um dos elementos de sua atuação é bastante explorado por Bergman: as mãos do personagem que manipula aqueles que ele quer dominar. A mão, vale lembrar, sempre fora um signo de poder na cultura ocidental e nórdica. Usada por Da Vinci em suas pinturas, e sendo objeto de passagem de poder nos casamentos romanos, a mão do pastor exerce um processo de dominação sobre as crianças e sua esposa. É de arrepiar, cada cena em que ele está presente. Elementos como esses são o que impactam na construção da obra e no objetivo de provocar uma experiência e atingir o espectador da maneira mais sutil e orgânica possível.

Assistir a história de Fanny e Alexander, e da luta da família Ekdahl por resgatá-los das mãos de um tirano é testemunhar a maestria de Bergman, assim como ter contato com uma narrativa universal sobre a resistência contra um poder disciplinador, controlador e ditatorial. Considerado como o último filme de Bergman, Fanny e Alexander reune com uma força brutal tudo o que Bergman tem de mais talentoso na sua forma de contar histórias, na direção que dá a todas as atuações, como explora os elementos de horror que tem no filme e como produz cenas extremamente empáticas às emoções das personagens. A cena de dor e desespero de Emilie no funeral de seu marido é de perfurar o coração de qualquer pessoa. Dela, lembramos as viscerais atuações de Toni Collete, em Hereditário, e Florence Pugh, em Midsommar. Também podemos lembrar a inventividade infantil que observamos em O Labirinto do Fauno, de Guilhemo del Toro, quando o único meio de resistir ao horror opressivo dessa relação de poder que é o de um padrasto para com os enteados é a criação de histórias e a coragem. Afinal, Fanny e Alexander foram criados em um mundo onde a imaginação não era apenas uma diversão, mas era um estímulo para viver. Seu pai sempre pedia coragem a eles. Cercados por artistas, ventríloquos, pessoas circenses que mais riam do que choravam, eles são transportados para um mundo frio e sombrio de um disciplinador religioso com práticas inquisitórias.

Bergman nos traz em sua última obra um discurso de amor a complexidade humana, amor à arte e como esta é libertadora. Como a família, em seus aspectos liberais, é um dispositivo libertador contra outro tipo de família, opressora, onde o patriarcado é uma hierarquia intransmutável e inquestionável, figurando-se como no signo inquisidor e frio, que traz os piores aspectos de um drama de horror da condição humana. Bergman é um mestre de uma longa e apreciada obra que deve sempre ser lembrada e revisitada, posto que seus filmes sempre são instigantes questionamentos que inspiram novos artistas.

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