CRÍTICA: Meu Nome é Dolemite (2019), de Craig Brewer

Eddie Murphie, Da’Vine Joy Randolph e Wesley Snipes brilham no filme da Netflix e são fortes concorrente a indicação pro Oscar 2020.

A medida que assistia Meu Nome é Dolemite, de Craig Brewer, produzido pela Netflix, lembrei de outras grandes produções deliciosas: Ed Wood, de Tim Burton; e Artista do Desastre, de James Franco. Assim como seus co-generos – filmes metalinguísticos que falam de produções de filmes alternativos, que pela péssima recepção em seu tempo acabam por ser cultuados na atualidade – Meu Nome é Dolemite conta a história da criação do personagem Dolemite, por Rudy Ray Moore (Eddie Murphy), um balconista de loja de discos de Los Angeles que nunca foi levado muito a sério pelos produtores locais, sendo um deles interpretado por Snoop Dogg. Ao criar um personagem que faz stand-up comedy em um bar a partir de piadas grotescas roubadas de moradores de rua, Dolemite faz um enorme sucesso, chegando a gravar e vender uma enormidade de discos. Já com o sucesso alcançado, Rudy Ray Moore aposta tudo em uma produção cinematográfica sobre Dolemite. E é sobre esta jornada que o filme vai concentrar sua força.

O filme é uma grande homenagem ao período da Blaxplotation, um movimento cultural que colocou os negros como protagonistas de produções cinematográficas, em uma época onde o lugar deles era reservado a personagens secundários, coadjuvantes ou até antagonistas. Nesse período de extrema descrença nas produções da comunidade negra, o Blaxplotation foi um movimento de resistência aos padrões da época, assim como outros grandes movimentos artísticos foram em seu devido momento: só para lembrar um, temos o Impressionismo, na pintura. Foi este movimento a fagulha que fez explodir grandes nomes e abriu as portas do mundo do cinema para o protagonismo negro nos Estados Unidos. A partir dele, muitas obras, hoje cultuadas, surgiram, como Shaft. Artistas como Pam Grier, com o sucesso de Coffy, tiveram muito sucesso e até hoje são uma referências. Dolemite é uma obra em homenagem a este movimento, em uma narrativa deliciosa, dinâmica e engraçada, assim como eram os filmes da Blaxplotation.

O ponto principal é a volta triunfante de Eddie Murphie, que interpreta magistralmente Rudy Ray Moore. Pelo filme ser ter uma estrutura narrativa simples, conservadora, previsível, mas extremamente competente, Murphy brilha no papel e eleva a qualidade do filme. A impressão que dá é que Brewer queria que a estrutura do filme fosse uma mimese dos filmes da Blaxplotetion em sua simplicidade, mas dinâmico, engraçado e com o completo protagonismo do elenco, em sua enorme maioria, de afrodescendentes. E de fato, não apenas Murphy brilha, Wesley Snipes nos traz um D’Urville Martin afetado e extremamente engraçado. Apesar desse tom afetado, ele não se faz um personagem caricato, mas bem dosado e muito inspirado nesses personagens da própria Blaxplotation, assim como a maravilhosa Da’Vine Joy Randolph, como Lady Reed, nos traz uma forte, dramática e engraçadissima personagem que nos é apresentada em uma cena em que espanca o marido que a está traindo, sendo mais uma das minhas apostas a concorrer para premiações de 2020. A competência de uma grande interpretação está na construção empática e na ligação afetiva que o ator passa a seu público. E esses elementos são sentidos quando acompanhamos toda a jornada do Dolemite de Murphy, que já tinha no príncipe Akeen, de Um Principe em Nova York e no policial Axel Foley, de Um Tira da Pesada, dois dos personagens preferidos do cinema deste que vos escreve. Hoje, Dolemite entra para esta lista: inesquecível. Já estou torcendo para essas duas indicações ao Oscar.

Não há como não se divertir assistindo Meu Nome é Dolemite, mas isso não quer dizer que o filme não tenha problemas. Em princípio, ser um filme de estrutura de roteiro conservadora não seria um problema, mas a direção acaba dividindo o filme em dois momentos, onde um se torna mais interessante que outro. Me refiro ao primeiro momento, o do surgimento e criação de Dolemite, sua busca pelo sucesso e a conquista. Há momentos brilhantes, engraçados e belíssimos. Mas em um segundo momento do filme, quando eles começam a correr atrás da produção do filme é que a estrutura se engessa. Neste momento, o que sustenta a falta de criatividade dos roteiristas são dois elementos: as atuações do elenco, que é brilhante; e a trilha sonora, que não tinha como errar. Esses dois elementos dão sustento a esse deslize de direção, o que não aplaca um grande erro e nem compromete demais o filme.

Aqui recomendo Meu Nome é Dolemite, como um dos grandes acertos do ano maravilhoso que a Netflix está tendo. Continuando nessas apostas, a produtora se coloca como uma das grandes no cinema mundial.

Ficha Técnica:

Título Original: Dolemite Is My Name

Duração: 118 minutos

Ano produção: 2019

Distribuidora: Netflix

Dirigido por: Craig Brewer

Elenco: Eddie Murphy, Wesley Snipes, Mike Epps, Da’Vine Joy Randolph , Snoop Dogg.

Classificação: 16 anos

Gênero: Comédia

Países de Origem: EUA

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