CRÍTICA: A Vida Invisível (2019), de Karim Ainouz

O poderoso melodrama tropical de Karim Ainouz mostra como a invisibilidade foi a unica maneira de existir como uma resistência ao patriarcado.

Empatia! Essa palavra é, provavelmente, o fundamento primeiro da boa arte. Não há outra maneira de sentir o mundo, ser provocado a pensar e ser afetado por uma obra se ela não tiver o poder empático. A empatia é aquilo que dá vida e que desvela, que transforma a natureza e transgride as opressões que obscurecem a potencialidade da verdade e do espírito. A arte de Karim Ainouz nos presenteia com esta obra magistral chamada A Vida Invisível. Falo do único lugar que me pertence, sendo homem, mas, graças a arte – seja a música, a literatura e o cinema – pude sentir a força de vidas invisíveis que estão ao meu redor: mulheres que sempre são caladas, abafadas, silenciadas e moduladas pela cultura patriarcal que, por milhares de anos se naturalizou em nossas sociedades. Quantos sonhos foram destruídos, quantos corpos e mentes mutiladas pela força e pelo poder do patriarcado. Não há como não pensar nisso ao acender das luzes da sala de projeção após assistir a essa peça maestral do diretor cearense.

Esse melodrama tropical, como definem os próprios produtores do filme, nos narra a história de Eurídice (Carol Duarte e Fernanda Montenegro) e Guida Gusmão (Julia Stockler), duas irmãs cariocas, filhas de um casal conservador português que moram no Rio de Janeiro, em 1950. Ambas sonham juntas em ter uma vida cheia de conquistas e amores. Enquanto a inocente Eurídice sonha em ser aprovada para uma escola de música em Viena, a desinibida Guida sonha em construir uma família junta ao amado Yorgus, um marinheiro grego por quem se apaixonou. Tudo muda quando Guida decide fugir de casa com seu amado. Euridice, agora sozinha, casa-se com Antenor (Gregório Duvivier). É quando Guida volta para casa grávida e é expulsa pelo pai, que mente para a filha dizendo que sua irmã está morando em Viena. As duas passam a sobreviver a suas vidas, mas sempre tentando entrar em contato, uma com a outra.

Não tem como não compreender o filme como a expressão muito bem definida pelo diretor Karim Ainouz, quando ele se refere a Fernanda Montenegro: “uma força da natureza”. Já nas primeiras imagens do filme, Karim nos apresenta uma metáfora sobre o que o filme vai tratar: em uma selva fechada, após contemplarem juntas um belo pôr do sol, Euridice e Guida se perdem, e ambas buscam uma a outra desesperadamente, enquanto a mata fica cada vez mais fechada sobre elas, tentando silencia-las. Essa natureza que as separam é enfrentada pela própria resistência das personagens que, ainda assim buscam-se em meio aquele caos que a abafam. Euridice e Guida não nasceram invisíveis, claro, mas as relações de poder que elas enfrentam buscam reproduzir em ambas a mesma imagem que consome e imobiliza Ana, a mãe das irmãs, que aos poucos vai sumindo cada vez mais até, se esvair por completo, consumida pelo poder opressor do marido.

O triste mundo mimético apresentado por Karim mostra uma realidade pulsante: as vidas de ambas são operadas por homens que buscam ditar e construir as vidas delas, enquanto de uma forma ou de outra testemunhamos a resistência delas a essas forças. Guida se apaixonou por um homem que a engravidou e a largou, foi expulsa de casa grávida pelo pai, que não deu chances a mãe de mudar sua decisão e passou a enfrentar o mundo dos homens de sua própria maneira. Já Euridice luta para tentar construir sua vida, mas ser visível, para ela, era algo indesejável, porém impossível de evitar. Em certa cena, Euridice feliz por uma conquista é questionada por Antenor sobre o porquê ama tanto tocar piano, quando ela responde com um toque de prazer que sente que desaparece. É nessa invisibilidade que Eurídice sente seus prazeres, ou mesmo sente-se segura para dizer para si mesmo que existe. Ser invisível a faz escapar dos olhares vigilantes que buscam ditar as regras de sua própria existência. É dramaticamente poético o discurso produzido pela obra de Karim Ainouz e seus co-roteiristas Murilo Hauser, Inés Bortagaray. É simplesmente fantástico e visceral tanto a direção quanto o roteiro, que é uma adaptação do livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha.

Tão prazeroso quanto testemunhar essa história tão bem dirigida e roteirizada é ser envolvido pelas atuações, principalmente as das protagonistas vivenciadas por Carol Duarte, Julia Stockler e, a dama do teatro brasileiro, a força da natureza Fernanda Montenegro. Começando por esta, ela não precisa de tanto tempo para provocar o momento de maior emoção do filme, comunicando apenas no olhar um furacão de emoções cativantes para a plateia. Aquele olhar carrega toda a luta e os afetos de uma vida, das faltas, do vazio. O amor que Fernanda dá a Euridice transborda as telas e inunda os corações que a assistem. Seu trabalho em conjunto com Carol Duarte não beira a perfeição, ele é simplesmente perfeito, dando o tom certo da emoção quando o bastão é passado. É impressionante como Fernanda Montenegro nos cativa em tão pouco tempo. Mas tudo isso só foi possível pelo belíssimo trabalho realizado pela dupla Carol Duarte e Julia Stockler, sem esquecer das importantes mulheres que aparecem no filme, sendo grandiosas forças que ajudam a vida de Guida. Enquanto Euridice tem uma vida cercada por homens que modulam sua existência (o pai, o marido, o médico, o professor), Guida existe na periferia, na pobreza, enfrentando o mundo dos homens e sobrevivendo através da força dada por Filomena, uma mulher negra e periférica, sem homem e sem filhos, poderosamente interpretada por Bárbara Santos. É em uma vida parceira com Filomena que Guida acha uma forma de existir e sobreviver a este mundo.

Para finalizar, além da direção, do roteiro e das interpretações, a poesia do filme e seu sentimento é nos apresentados pela belíssima fotografia de Hélène Louvart, que usando das cores saturadas e de planos mais fechados nos ajuda a sentir a claustrofobia existencial das personagens, amassadas pelo patriarcado. Junto a direção de Karim, as imagens plásticas construídas nos mostram essas meninas sempre admirando o horizonte cheio de sonhos, ou as casas repletas de agonizantes sensações, com cores forte que ofuscam as personas que elas buscam ser, emulando sentimentos que as levam a certas atitudes. Em uma tomada específica, quando Eurídice está sendo examinada por um médico, sua imagem desfocada nos remete diretamente ao quadro O Grito, de Edvard Munch, nos apresentando seus olhos profundos e negros, boca aberta, como em um choque horrorizada.

A Vida Invisível nos mostra o quanto foi – ou é – mais seguro para essas mulheres existirem sozinhas, invisíveis aos olhos dos outros, quando a sociedade que as cercam impossibilitam suas existências. Enquanto a “encaixada” Euridice está cercada pelos regimes de visibilidades da sociedade (a família, os parentes que dizem amá-la), a “desvirtuada” Guida vive sua vida na periferia com outras fortes mulheres que a ajudam a ser o que é possível ser. A Vida Invisível é uma obra delicada e poderosamente política que nos faz compreender o que é resistir na invisibilidade para sentir que existe e que há ali algum sopro de vida pela qual vale lutar.

Ficha Técnica: A Vida Invisível

Título Original: A Vida Invisível 

Duração: 139 minutos

Ano produção: 2019

Estreia: 19 de setembro de 2019

Distribuidora: Sony Pictures

Dirigido por: Karim Aïnouz

Elenco: Carol Duarte, Julia Stockler, Gregório Duvivier, Fernanda Montenegro, Bárbara Santos

Classificação: 16 anos

Gênero: Drama, Romance

Países de Origem: Brasil

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