CRÍTICA: O Rei (2019), de David Michôd

Timothéé Chalamet brilha mais uma vez em obra de inspiração shakesperiana, que bate na trave nas aspirações de grandeza.

Para começar esta crítica, preciso deixar claro a todos os leitores que este que vos escreve não é um especialista em Shakespeare, a raiz que inspira a produção da Netflix, dirigida por David Michôd, O Rei (The King). Mesmo assim, antes de escrever esta crítica, busquei realizar algumas pesquisas sobre as obras do famoso dramaturgo inglês, uma vez que O Rei é um filme inspirado pela tetralogia shakespeariana dos reis Ricardo, Henrique IV e Henrique V. Ao contrário da excelente adaptação de Macbeth: Ambição e Poder (2015), de Justin Kurzel, que foi sucesso de crítica, mas um fracasso entre o público, Michôd apostou em uma obra que unisse os acontecimentos históricos e o espirito shakespeariano do estudo da natureza humana com um linguajar “mais acessível” aos poucos familiarizados para realizar sua obra. O resultado é que o filme começa prometendo ser uma obra-prima e termina de uma maneira apressada e decepcionante como Game of Thrones.

O filme conta a história da ascensão do Rei Henrique V (Timothée Chamalet), após a morte de seu pai. Obrigado a comandar a Inglaterra, o ex-boemio príncipe Hal e agora Rei precisa amadurecer rapidamente para manter o país consideravelmente seguro durante a Guerra dos 100 Anos, contra a França. Por quase todo o filme, incluindo seu clímax, o filme é merecedor de aplausos. Parece que Michôd nos dá uma direção brilhante, de acordo com as pretensões do projeto. Temos uma produção técnica de espantar, com uma excelente montagem, uma musica tensa, uma direção de arte excelente e com a fotografia assinada por Adam Arkapaw, que também fotografou Macbeth: Ambição e Poder (2015), A Luz no Fim do Túnel (2019) e Assassin’s Creed (2016). Por quase toda exibição, somos tomados pela narração da história, e, principalmente, por mais uma brilhante atuação de Timothée Chalamet, assim como todo o elenco, dando destaque especial a ótima atuação de Robert Pattinson, que a cada dia mais se distancia do chato vampiro de Crepúsculo, se formando como um grande ator.

Chalamet já pode ser considerado mais uma estrela queridinha dos grandes diretores e produtores de hollywood e das produções independentes e alternativas. Aqui ele prova que sua interpretação em Me Chame Pelo Seu Nome (2017) não foi uma sorte de principiante. Ele consegue nos conduzir a uma transformação do boêmio Principe Hal ao grande rei Henrique V, sendo assombrado pelo trono que carrega as piores forças que o orbitam: traição, falsidade, assassinatos, dentre outras coisas. Por ele, observamos questionamentos e reflexões sobre o poder soberano do rei, que é abdicado de sua vida comum, a qual teria direito a amizades e amores, e passa a ter uma vida onde confiar em alguém é um ato ingênuo e de fraqueza. Desse ponto de vista, temos um bom acerto do roteiro.

Mas este roteiro passa a fraquejar, quando observamos a decisão de escantear uma das mais brilhantes personagens escritas por Shakespeare, que é a rainha Catarina (Lilly-Rose Depp). Extremamente importante, e um dos pontos de inflexão ao poder de Henrique V, Catarina aparece apenas no final como um artifício de plot-twist extremamente frágil. Essa virada, de fato, acontece sem nenhum anúncio, uma peça deslocada a estrutura que acostumou o olhar do espectador a outras temáticas. O problema disso é visto a olhos nus: quando o roteiro dá menos importância ao tema da traição, extremamente importante a Shakespeare, e passa a optar mais por preparar a audiência para o clímax que é a batalha de Azincourt – perfeitamente realizada e que em muito lembra um dos melhores episódios de Game of Thrones, a Batalha dos Bastardos – ele desestrutura a verdadeira natureza da obra que é o estudo sobre a natureza humana dos envolvido nas relações que orbitam o soberano. Isso explica a dificuldade que é realizar uma obra que tem inspirações e aspirações shakespearianas, mas que tropeça na indecisão de ser: afinal, é a natureza shakespeariana ou a da indústria da cultura pop que importam a esta obra? A ambição da obra de Michôd parece traí-lo – o que não deixa de ser um resultado shakespeariano, se me permitem a brincadeira.

Mas longe de ser um péssimo filme, O Rei é uma produção que vale demais ser assistido. Diferentemente da produção da Netflix do ano passado, O Legítimo Rei, de David Mackenzie, O Rei está anos luz a frente. É uma ótima porta de entrada para o difícil mundo de Shakespeare, conduzido por uma dose de cultura pop, com referências a obras recentes e que conversa bem com o público em geral. Infelizmente há tropeços de roteiro e de direção, o que trai ao espirito shakespeariano. Mas fica a esperança de bater o sentimento que veio a este que vos escreve na maioria das pessoas que assistam à O Rei: o de buscar mais obras cinematográficas e literárias sobre o dramaturgo inglês.

Ficha Técnica: O Rei (Original Netflix)

Título Original: The King

Duração: 140 minutos

Ano produção: 2019

Distribuidora: Netflix

Dirigido por: David Michôd

Elenco: Timothée Chalamet, Robert Pattinson, Ben Mendelsohn, Lilly-Rose Depp.

Classificação: 16 anos 

Gênero: Histórico

Países de Origem: Reino Unido

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