CRÍTICA: Doutor Sono (2019), de Mike Flanagan

Obra de Mike Flanagan parece ter conseguido unir os espiritos da obra cult de Kubrick com a de King. Um filme surpreedentemente bom, fazendo valer cada minuto no cinema.

Um dos maiores riscos na produção cinematográfica de hoje em dia é mexer com clássicos e buscar realizar uma continuação, homenagem ou releitura. Isso fica mais derrapante quando isso envolve um outro elemento, que é a adaptação de uma obra adorada. Adaptação é a descontextualização de um material para encaixá-lo, de acordo com a visão do autor, aos modos de leitura contemporâneo, construindo formas de percepção de acordo com a linguagem usada, no caso, da literatura novelesca ao cinema. Falo isso porque Doutor Sono, filme do talentoso Mike Flanagan, corre não apenas o risco de adaptar uma obra literária, mas de dar continuidade a uma história que não é bem aceita pelo escrito original, Stephen King, mas cultuada pelo mundo cinéfilo pela direção de Stanley Kubrick. O desafio era enorme e cheio de armadilhas: era preciso agradar a fãs de King e manter o respeito cultuado a Kubrick. Em princípio, o projeto se anunciava um fracasso, mas ao fim, estávamos todos errados. Doutor Sono é um raro caso de sucesso.

Depois dos eventos no sinistro Hotel Overlook, o pequeno Danny (Roger Dale Floyd) vai viver com sua mãe, Wendy (Alex Essoe). Traumatizado, Danny é acompanhado e aconselhado pelo espirito do Sr. Hallorann (Carl Lumbly). Anos depois, já crescido, Danny, agora Dan (Ewan McGregor), um alcoolatra afundado em seu vício, muda-se de cidade para recomeçar a vida. Ao tratar-se e lutar contra a doença, Dan consegue um novo trabalho em um hospital. Neste ele cuida de enfermos que estão em seus últimos dias e os tranquiliza, usando seus poderes de iluminado (o que explica o título do filme). Mas nesta nova vida, ele encontra a pequena Abra (Kyliegh Curran), uma iluminada com poderes maiores do que os dele, estabelecendo uma relação de amizades e tutoria com a garota. O grande problema é que se descobre que um grupo que se intitula de Nó e persegue crianças iluminadas para se alimentar de suas almas descobrem a o poder de Abra. Este enfrentamento vai jogar Dan em uma jornada às profundezas de seus traumas e sua luta contra sua doença.

A narrativa conduzida por Flanagan, de fato, nos toma as mãos e nos conduz por uma floresta cheia de elementos que conversam entre o horror psicológico, o terror fantastico e as marcas traumáticas que apartam famílias, de pretensão universal. Flanagan tomou o desafio, que era criar uma obra que agradasse aos dois públicos (que adoram King e Kubrick), e calmamente costurou elementos narrativos com uma paciência cheia de dinâmica. Ele não se preocupa em o tempo todo assustar o espectador. Seu horror é construído à medida que o filme vai se desenvolvendo, usando, por vezes, a linguagem estética do próprio Kubrick. As longas tomadas que preparam o público a um determinado fim são bem aproveitadas pelo diretor. Os movimentos de câmera em situações de violência e os planos e enquadramentos decupados para certas sequencias são homenagens e presentes aos fãs do cultuado filme de Kubrick, mas respeitando o espírito da obra de King. Em muitas entrevistas, o escritor reclama da visão de Kubrick, uma vez que este esquece que o espirito da história de O Iluminado era sobre o terror da relação de um pai alcoolatra e sua família. Aqui, Flanagan repete com muita competência o que fez em sua série A Maldição da Residência Hill: ele, aos poucos, vai contando a história e nos apresentando cada personagem do filme, os protagonistas, o personagem principal e os antagonistas.

Neste caso, a competência de cada ator e atriz são fundamentais. McGregor constrói com uma delicadeza incrível o protagonista Dan Torrance, mostrando a natureza de seus problemas e como seu personagem sobreviveu o sofrimento de sua própria história. Já a antagonista é uma personagem que vai ficar marcada. Com elementos que vão virar ícones da cultura pop, Rebecca Ferguson nos entrega uma brilhante e assustadora Rose The Hat, a líder da seita do Nó que, como vampiros que atravessam o tempo – o que não quer dizer que são imortais – caçam iluminados para sugar suas almas. Os momentos em que Rose The Hat aparecem em cena são hipnotizantes. A beleza de Ferguson é muito bem aproveitada como este elemento sedutor e carismático que é a porta de entrada para o horror que sua seita produz. Talvez pudéssemos enquadrar essa seita, ou essa obra como uma das melhores com temas vampirescos, que apesar de não terem as presas e nem sugarem sangue, eles consomem as almas dos iluminados até mata-los. E por fim, a segura, carismática e forte Abra. A jovem Kyliegh Curran já se apresenta como uma promessa para ficarmos de olho. Nossa personagem principal, além de Curran, é interpretada por outra atriz, quando mais nova e com pouco tempo de tela: Dakota Hickman. E é incrível como não notamos uma mudança no tom das interpretações, sendo extremamente fluida a transformação da personagem.

As preocupações e o respeito aos grandes artistas americanos fez de Doutor Sono uma obra que todos devemos aproveitar para assistir no cinema. Detalhes da direção de arte, cheio de easter-eggs trazem ao filme um divertido elemento saudosista. Por todo o filme, Flanagan mede um pouco a quantidade de adereços que fazem funcionar o dialogo entre King e Kubrick, sendo quase como um mediador da paz entre ambos. Isso percebemos já no último ato, quando o conflito tem como localidade e desfecho o Hotel Overlook. Flanagan nos toma as mãos e nos conduz afetivamente e nas melhores construções de imagem com elementos saudosistas de uma releitura do horror de Kubrick, como se andássemos em uma casa fantasma de um parque de diversão no halloween. Para além de uma visão superficial, temos os maiores conflitos de nossos personagens no lugar mais mal assombrado do mundo. SPOILER ALERT. Fica aqui um ponto mais do que positivo o conflito que Dan tem com o espirito de seu pai, Jack Torrance, interpretado brilhantemente pelo garotinho de ET, o eterno Elliot, Henri Thomas, que já trabalhou com Flanagan em A Maldição da Residência Hill. E para não dizer que falei apenas de flores, alguns pontos fracos do filme está em sua própria natureza: com tantos personagens de tamanha expressão na obra, alguns precisavam ser descartados. É o caso da personagem Snakebite Andi (Emily Alyn Lind), que aparece como alguém de grande importância e impacto na história, mas serve apenas para nos mostrar um lado do grupo ao qual ela se junta. Sua funcionalidade acaba se perdendo a medida que o filme vai passando, sendo descartada logo, apesar da curiosidade que temos quanto a ela por causa da importância dada no início.

Doutor Sono foi mais do que uma grata surpresa. Foi a confirmação do talento de um diretor que já se anunciava como um grande contador de histórias com uma grande competência nas decisões linguísticas a adotar para uma história que intenta em nos fazer perceber e ser empáticos a todos os personagens. Só assim podemos ter uma real compreensão dos conflitos que os personagens enfrentam e como isso é um ponto decisivo para as vidas humanas relatadas pelo cinema.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Doctor Sleep

Duração: 152 minutos

Ano produção: 2019

Estreia: 7 de novembro 

Distribuidora: Warner Bros

Dirigido por: Mike Flanagan

Elenco: Ewan McGregor, Rebecca Ferguson, Kyliegh Curran

Classificação: 16 anos

Gênero: Terror

Países de Origem: EUA

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