CRÍTICA: O Irlandês (2019), de Martin Scorsese

Scorsese volta com uma obra-prima, acompanhado de lendas do cinema com uma grande história cinematográfica

Ao longo dos seus 60 anos de carreira, Martin Scorsese se constituiu como um dos mestres na arte do cinema, mas também, um gigantesco arquivo do audiovisual. O diretor que, maldosamente, é identificado por seus filmes de máfia configura obras que vão muito além da insalubre identificação por gênero. Em sua biografia temos estéticas diversas (ficção, documentários, registros e curtas metragens) e narrativas que ganham grandezas a partir dos diversos ritmos e tons que provocam essa identificação dos gêneros. Ao contrário do que aqueles de pouco vocabulário que o atacaram por sua opinião sobre o cinema da Marvel (que concordo em parte), Scorsese é um dos poucos nomes em atividade que fazem o cinema resistir a forças do mercado, que tentam coloca-lo como apenas uma montanha russa de emoções baratas – nada muito diferente dos jogos de vídeo game – em vez do mais pleno lugar de arte.

De Quem Bate em Minha Porta (1967), passando por Taxi Driver(1976), Touro Indomável (1980) e O Rei da Comédia (1982), se engrandecendo com Os Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995), Gangues de Nova York (2002) o trabalho de Scorsese não foi reconhecido com um Oscar até Infiltrados (2006), apesar de este não ser um dos melhores trabalhos do diretor, na minha humilde opinião, mas sem perder a grandeza da direção. Contar uma boa história e tentando passar pelas imagens e montagens as emoções e sensações que afloram das relações imagens-espectadores são os grandes objetivos do cineasta que busca refletir sempre sobre as relações humanas, sociais e políticas. Em O Irlandês (2019), Scorsese permanece em grande forma e costurando uma narrativa tão brilhante quanto qualquer filme seu. Mais. Em um filme de mais de 200 minutos, Scorsese consegue nos trazer em uma estética que, à primeira vista parece cansada, uma história absolutamente humana sobre a vida de um matador que atravessa e é atravessado pela história dos Estados Unidos. Junto a isso temos três gigantes da dramaturgia cinematográfica que, por suas idades andavam escanteados por hollywood: Robert De Niro, Joe Pesci e Al Pacino.

O Irlandês é a história de Frank Sheeran (Robert De Niro), um caminhoneiro veterano da segunda guerra mundial que ao conhecer e se tornar amigo do lendário mafioso Russell Bufalino (Joe Pesci) passa a integrar o mundo do crime organizado que comandam estados e influenciam a política nos EUA. Em sua trajetória, Frank se aproxima do chefe do sindicato dos caminhoneiros – o maior sindicato dos Estados Unidos – Jimmy Hoffa. Esses três personagens são as articulações do filme, que moldam, juntamente com sua relação familiar, as personas de Frank. A estrutura do plot do roteiro escrito por Steve Zaillian (Gangues de Nova York e A Lista de Schindler) é simples: a história contada por um velhinho em uma casa de cuidados que, finalmente, revela a história de sua vida guardada em sua mente, mas percebida por suas filhas, causa central de seu sofrimento. No fim, o elemento principal de O Irlandês é a sobrevivência de Frank ao tempo, um paralelo interessante com o próprio Scorsese.

A direção magnifica não é apenas percebida, no uso de alguns elementos cinematográficos para homenagear os filmes de máfia (como uma referência a musica de O Poderoso Chefão na cena em que Bufalino explica a Frank como funciona aquela vida), mas na construção e no tom de cada personagem que transformam a vida e a personalidade de Frank, nos planos escolhidos e movimentos de câmera que, a certa altura se tornam um pouco longos para sentirmos a ação do tempo, o que não ocasiona de forma alguma qualquer tédio. Mas tão incrível quanto tudo isso é como Scorsese dita o ritmo das atuações como um maestro, sendo essencial na química que percebemos entre os personagens. É também notável a escolha pela técnica de efeitos especiais que rejuvenescem os atores para que eles mesmos interpretem seus personagens mais jovens, o que mostra como o diretor sabe aproveitar e adaptar as evoluções tecnológicas do cinema para a história que se quer contar, sendo um elemento a mais e não a estrela principal do filme, como alguns parques de diversões fazem…

E para contar essa história, nada melhor do que contar no cast com gigantes da atuação e que forma marcas das histórias de máfia como Robert De Niro, Joe Pesci, Al Pacino, Harvey Keitel além de Stephen Grahan, Anna Paquin, Ray Romano, Jesse Plemons dentre outros. O trio principal nos apresenta personagens com uma química tão natural que impressiona. Não há como não reconhecer o quão gigante é o Frank de De Niro, com tons diferentes em cada momento de sua vida, nos mostrando a ascensão e a queda com o passar do tempo. Por mais que Frank procure o amor da família, o trabalho não o permite, se tornando essa figura sombria que assusta e impõe respeito a todos de seu meio. Outro gigante é Joe Pesci, que estava aposentado e foi convencido por De Niro e Scorsese a voltar a labuta. Seu Russ Bufalino é um mestre épico que, em condições normais, seria um marco no cinema de máfia. A frieza que o personagem pede é um contraste aos personagens interpretados por Pesci ao longo de sua carreira. Já o famoso sindicalista Jimmy Hoffa é visto a partir do genial tato de Al Pacino. Longe de ser um impecável estrategista, ele se configura como uma figura complexa, leal, fiel, inteligente, mas ao mesmo tempo temperamental, explosivo, impulsivo e, até, ingênuo. Não há como assistir a esses três personagens e não desejar que todos sejam reconhecidos nas premiações que hão de vir.

Por fim, não tenho como não perceber o ultimo e emotivo plano de O Irlandês. Gosto de acreditar que alí é uma clara referência, novamente, a O Poderoso Chefão, mas de uma forma irônica, com um velho e respeitado Frank, sentindo medo de sua própria vida não pelos seus inimigos humanos, mas pelo tempo que está consumindo seu corpo, sua própria vida. As sequencias finais de Frank procurando organizar seu funeral, comprando seu caixão (verde, cor da Irlanda), se confessando com um padre nos anunciam o fim do filme, mas também a vida dessa obra-prima do cinema.

Ficha Técnica

Título Original: The Irishman

Duração: 210 minutos

Ano produção: 2019

Estreia: 14 de novembro de 2019 (Cinema)

              27 de novembro de 2019 (Netflix)

Distribuidora: Netflix

Dirigido por: Martin Scorsese

Classificação: 16 anos

Gênero: Biografia, Suspense

Países de Origem: EUA

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