CRÍTICA: História de um Casamento (2019), de Noah Baumbach

Sensivel e naturalista, filme de Noah Baumbach nos apresenta uma história tocante com incríveis atuações de Adam Driver e Scarlett Johansson.

Já a algum tempo estreou na Netflix História de um Casamento (2019), filme dirigido por Noah Baumbach – do elogiadíssimo Frances Há (2012) – e estrelado por Adam Driver e Scarlett Johansson, que finalmente se libertou do extenso contrato com a Marvel. Demorei um pouco a ver por um simples motivo: sofro por demais com filmes de teor naturalista e tão próximo ao real. Daí vem meu gosto pelo cinema fantasioso, que por mais que fale do real, tenha doses fantásticas que embelezam e poetizam a verdade entranhada em sua narrativa. No caso de História de um Casamento, os comentários eram os melhores – e mais apavorantes, no meu caso – possíveis. O Kramer versus Kramer (1979) dos anos 2000; o Cenas de um Casamento (Ingmar Bergman) do século XX. Essas afirmações me animavam e me assustavam ao mesmo tempo. Enfim, criei coragem e fui assistir. E de fato, constatei o quão brilhante, triste, doloroso e poderoso é esse filme.

Seu forte teor teatral tira o protagonismo da direção e deixa com Adam Driver e Scarlett Johansson o papel de levar o filme nas costas. À primeira vista, Baumbach tem quase o papel resumido de decidir as direções do roteiro técnico e a forma de narrar a história, sem muito apelo ao poético. Talvez essa fosse a melhor decisão que o diretor pudesse ter. De fato, a história do divórcio de Nicole e Charles pedia uma intensidade forte, clara e, por vezes, comedida na atuação dos atores. Essa dosagem vem da química entre a direção e os atores, uma triangulação perfeita que nos apresenta um drama – que beira o melodrama – naturalista de um casal que era visto como um casal perfeito, mas que acaba por declinar aos desgastes provocado por egos abusivos.

O filme nos conta a história do processo de divórcio entre Charles (Driver) e Nicole (Johansson), um casal americano de artistas – ele diretor de teatro e ela uma atriz em ascensão – que se conhecem, se apaixonam e resolvem levar a vida juntos. Nicole deixou Los Angeles quando fora descoberta e fez sucesso em um filme adolescente, apostando no amor e no projeto de Charles, um diretor de teatro experimental que mora em Nova York. Nicole passa a ser a musa de Charles, que ganha enorme reconhecimento, enquanto Nicole é menos percebida. O que era admiração se torna sufocamento e Nicole passa a desejar maior espaço para seus projetos, que Charles sempre protela. Esse é o desenho que contextualiza o processo de divórcio. O filme costura as semelhanças e diferenças entre o casal, as percepções e falta delas, os objetos de disputas que caem para o campo judicial, tendo o filho do casal como aquilo que dosa a tensão entre ambos – não é a toa que a cena de discussão mais forte é longe dos ouvidos do filho. Nesta disputa jurídica aparecem dois personagens com, também, grande interpretação, Nora Fanshaw (Laura Dern) e Jay Marotta (Ray Liota), advogados de Nicole e Charles, respectivamente.

Por vezes, percebemos que Baumbach busca se aproximar e, até mesmo, se inspirar no filme Cenas de um Casamento, de Bergman. Mas o olhar de quase pesadelo do diretor sueco não é repetido por Baumbach – creio que ele nem ousou fazer isso. De fato, percebemos a inspiração bergmaniana, mas a pegada naturalista afasta-se do quase horror psicanalítico do sueco. O Real é fantasmagórico, como aponta a teoria lacaniana muito bem retratada por Bergman, mas no caso de História de um Casamento o tom é diferente, o que me obriga a discordar de muitos críticos que buscam fazer um paralelo entre as obras. Aqui não vemos a psicanálise em primeiro ou em segundo plano, como o faz Bergman, mas sim, um teor construtivista típico de nossa sociedade afundada no pós-estruturalismo, onde a psicanálise tangencia. Por isso, esta obra conversa tão bem e é tão empática com nosso tempo. Sobre ela pesa menos o volume intelectual que outras obras transpiram e muito mais a força empática que o roteiro consegue estruturar, através de formas de provocar identificação entre os personagens e a audiência. Busca-se, o tempo inteiro, fazer com que, em algum aspecto, os personagens encontrem em nós algo que possamos reconhecer. Uma maneira simples, mas vitoriosa de aproximar uma história de outro a nossa própria. Não meço palavras para elogiar esta obra de Baumbach, que já qualifico como uma das minhas favoritas para a temporada de premiação que há de vir.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Marriage Story

Duração: 137 minutos

Ano produção: 2019

Estreia: 7 de dezembro de 2019

Distribuidora: Netflix

Dirigido por: Noah Baumbach

Elenco: Adam Driver, Scarlett Johansson, Laura Dern, Ray Liota

Classificação: 16 anos

Gênero: Drama

Países de Origem: EUA

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