DICA DE SÉRIE: Watchmen (2019), da HBO

“Caminhando em terreno sagrado, Damon Lindelof consegue capturar a essência política e distópica da HQ de Alan Moore e Dave Gibbons.”

Apesar de seu enredo, Watchmen (a HQ em doze volumes publicada de 1986 a 1987 pela DC Comics) nunca se tratou em si de uma história de heróis e sim de uma distopia geopolítica que refletia a época de seu lançamento. Tendo como pano e fundo as consequência da Guerra do Vietnã e o possível apocalipse nuclear ocasionado pela Guerra Fria, o roteiro original utiliza esses elementos para contar uma história ambientada num mundo onde super-heróis existem e acima de tudo, são humanos.

Ao saber disso, Damon Lindelof, showrunner e produtor executivo da nova roupagem trazida pela HBO, soube não apenas como referenciar, mas honrar o legado da icônica HQ nessa adaptação que se posiciona como uma sequência e reimaginação do mundo distópico construído por Moore e Gibbons tendo como principal mote a ascensão do fascismo de extrema direita que vemos nos dias atuais.

A trama acompanha as consequências do desfecho da HQ em 2019 e mais ainda, se aprofunda na história genocida e racista dos EUA. Ambientado em Tulsa, cidade cujo passado é marcado pelo massacre de 1921 contra a “Wall Street Negra”, os heróis mascarados ainda são proibidos e caçados como criminosos enquanto a Polícia civil utiliza mascaras para combater seus inimigos. A polícia local e seus agentes, na pessoa da detetive Angela Abar/Sister Knight (Regina King), se veem numa trama misteriosa iniciada pela morte de seu comandante Judd Crowford (Don Johnson) após a ascensão da Sétima Kavalaria, grupo terrorista de cunho supremacista branco que tem no Diário de Roscharch o seu escrito sagrado.

O roteiro intrincado não subestima em nenhum momento o telespectador, que necessita de uma atenção dobrada para a série que se movimenta de maneira não linear e que em nenhum momento especifica quando e onde se passa a cena dentro da construção de mundo de Watchmen. A trama ainda se encarrega de dar um destino aos icônicos personagens da obra original como Ozymandias, Espectral II, Justiça Encapuzada e obviamente o divino Doutor Manhanttan fundindo suas histórias com os novos personagens, Sister Knight, Looking Glass, Lady Trieu, Cal Aber e outros que compõem o incrível time de atores selecionados para a empreitada da HBO.

A cada novo episódio, Watchmen eleva o seu nível de qualidade trazendo novos mistérios tão conflituosos para o público quanto para seus protagonistas sempre escapando de resoluções obvias sem se escorar de maneira gratuita no material base. A minissérie em 9 episódios, consegue manter um ritmo acelerado (as vezes até demais), sem deixar cair o interesse e o nível de roteiro que nos faz afeiçoados pelos mais simplórios momentos desde uma simples conversa de bar a sequências de ação muito bem coreografadas.

No final, a falta de um respiro para processar os acontecimentos conta como ponto negativo que em nada tira todos os gigantes méritos que a série acumula durante toda sua exibição. O último episódio mesmo que tenha conseguido amarrar todas as pontas soltas, ainda é o seu calcanhar de Aquiles que comparado ao final da HQ não tem o mesmo impacto, mas ainda assim é satisfatório e muito acima da média de grande parte das produções televisivas.

Watchmen se consolida como uma das mais bem sucedidas séries de 2019 tanto em público quando em qualidade e provavelmente a melhor adaptação do material fonte desde a publicação da HQ original. Provocativa, cativante e acima de tudo, uma trama política relevante para os dias atuais, a série da HBO tem o cacife para entrar no cânon do universo de Alan Moore com muita honra, principalmente se consideramos que por muitos anos Watchmen permeou os estúdios de Hollywood como sendo uma obra inadaptável.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Watchmen
Ano de Produção: 2019
Gênero: Ação, Aventura, Ficção
Classificação: 16 anos
Showrunner: Damon Lindelof
Elenco: Regina King, Don Jonhson, Tim Blake Nelson, Yahya Abdul-Mateen II, Jeremy Irons, Louis Gossett Jr., Jean Smart, Hong Chao, Tom Minson, Sara Vickers, James Wolk

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