CRÍTICA: Judy (2019), de Rupert Goold

Atuação brilhante de Renée Zellwelger salva a cinebiografia de Judy Garland de cair no marasmo dos clichês do gênero.

⭐⭐⭐

É inegável o impacto cultural da figura de Judy Garland para o entretenimento norte-americano. Desde sua estreia até o absoluto estrelato no clássico “O Mágico de Oz”, e logo após sua carreia ascendente como estrela mirim, Garland se consolidou como uma das queridinhas da América na primeira metade do século XX devido à versatilidade de seus talentos e o carisma inerente. Sua carreira de grande sucesso levou a ganhar prêmios no ramo da atuação e da musica, mas viu sua carreira declinar ao enfrentar a mais cruel inimiga das artistas de Hollywood: a idade.

É esse o ponto que a cinebiografia dirigida por Rupert Goold escolhe para retratar o legado de Judy, que utiliza flashbacks pontuais para dar uma visão macro da carreira da atriz principalmente durante os anos que se consolidou como estrela da Metro-Goldwyn-Mayer. Em seus últimos meses de vida, sem conseguir nenhum trabalho à altura de seu nome nos Estados Unidos, ela parte para uma série de shows em Londres, cidade cujo seu prestígio ainda era muito alto, para tentar dar uma vida mais confortável e estável para seus dois filhos ainda crianças.

A partir dessa narrativa podemos acompanhar o ser humano atrás da estrela. Ao enfrentar sérios problemas de alcoolismo, vício em ansiolíticos, distúrbios alimentares, depressão e problemas de insônia é possível estabelecer paralelos com os traumas vividos dentro do rígido contrato da MGM, que a privou de uma adolescência sadia. É aí que entra o coração do filme: a atuação de Renée Zellweger.

Renée entrega uma Judy forte, mas que ao mesmo tempo carrega muita fragilidade e dependência emocional. É nas cenas de silêncio que a personagem ganha força apenas pela expressão facial que tenta esconder o conflito de manter a imagem elegante de sua persona de palco mesmo enfrentando seríssimos problemas como a dependência em álcool, remédios e depressão. Apesar de alguns momentos clichês em relação à criação dos filhos (e uma cena em especial que envolve um telefonema), Zellweger não se entrega a uma atuação de maneirismos, mas deixa-se levar pela aura de requinte que Judy Garland inspirava mesmo em seu declínio.

Porém, não podemos dizer o mesmo da direção de Goold. Apesar de não ser um trabalho ruim, quando se trata de direção o filme entrega nada além do básico e devido à competência de Renée Zellweger, por pouco não correu o risco de cair em cenas bregas que se inclina para forçar um sentimentalismo de maneira apelativa. Momentos gloriosos como as performances de Judy não carregam a força que precisam, pois o diretor opta por planos abertos sem grande inspiração, com movimentos de câmera preguiçosos e sem nenhum ritmo em comparação ás músicas apresentadas que vão ficando repetitivas ao longo do filme. Essa falta de esmero também reflete na narrativa, que se torna arrastada apesar do roteiro não ser inflado de informações desnecessárias. Por muito pouco, a cena que envolve “Somewhere over the rainbow” no filme também não se tornou um momento cafona.

Por fim, as atuações secundárias no filme também estão muito boas. Destaque para Finn Wittrock que interpreta Mickey Deans, seu último marido e Andy Nyman, que mesmo num papel curtíssimo de apenas poucos minutos em cena brilha bastante como um fã ávido de Judy e mostra a relação da artista com o público LGBT da época. Michael Gambom também tem um papel curto, mas como de praxe entrega um ótimo desempenho.

No mais Judy, é um bom filme que quase escorrega no limbo das cinebiografias esquecíveis por conta da falta de inspiração do diretor para dar uma alma ao roteiro, mas que se sustenta principalmente pela força das performances e pelo legado interessantíssimo construído em torno da personagem título que por si só é um evento a ser notado.

FICHA TÉCNICA
Nome Original: Judy
Origem: Reino Unido, Estados Unidos
Produtora: Pathé, BBC Films
Gênero: Cinebiografia, Drama
Duração: 118 minutos
Classificação: 14 anos
Direção: Rupert Goold
Elenco: Renée Zellweger, Finn Wittrock, Jessie Buckley, Michael Gambom, Rufus Sewell, Royce Pierreson, Andy Nyman

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s